Baixaria Sonora: 20 anos de Latidos e Fritação

Baixaria Sonora: 20 anos de Latidos e Fritação

Jean Paz escreve sua coluna Baixaria Sonora todas as terças-feiras aqui, na Expedição CoMMúsica. Leia mais textos do Jean no blog Baixaria Sonora.

Você percebe que está ficando velho, quando um dos seus álbuns preferidos está completando 21 anos.

Baixaria Sonora: 20 anos de Latidos e Fritação

Esse ano, o álbum de estreia da Cachorro Grande, produzido pela lenda Thomas Dreher em parceria com a própria banda, completa 20 anos.

O disco tem 13 faixas que nos remetem diretamente ao rock dos anos 60. E é considerado um dos grandes álbuns do “Rock Gaúcho”.

Por mais que a expressão “Rock Gaúcho” irrite alguns, para mim ela é é repleta de afeto.

Vai muito além de rotular as bandas.

E me remete a tempos que não voltam mais.

De várias madrugadas desbravando Osvaldo Aranha, Barros Cassal e Independência.

Tentando entrar de graça no Araújo Viana, falando portunhol com gringos na Lancheira do Parque, e dançando até descabelar no Ocidente.

E quase sempre terminar o rolê fazendo amizades aleatórias no Bambus.

Bebendo vinho de 3 reais na redenção no domingo a tarde, pagando 5 pilas para entrar na Fun House da Cachorro Grande e no Garagem Hermética.

Pra quem viveu essa época, a festa “Fun House” organizada pela banda Cachorro Grande no antigo casarão em que eles moravam era um megaevento.

Era muito massa ver os caras bem de perto, no auge do lançamento do primeiro álbum e trocando ideia com a galera.

Apesar de sair de lá sem saber meu nome nem meu endereço, lembro que tudo era colorido, e que o tanque de lavar roupas era usado como mictório. E que havia uma placa que dizia: “Favor não cagar aqui”.

E naquela época em que o disco saiu, todo mundo queria ser beatnik.

Todos se vestiam como se estivessem nos anos 60.

E se pareciam com idosos cheios de energia voltando do mercado com sua bolsa cheia de biscoitos enlatados e potinhos com alfazema.

Inclusive, na época eu devo ter beijado umas 5 idosas, achando que eram beatniks.

Mas, vamos voltar ao disco que está prestes a completar 20 anos.

Ele foi o disco certo, na hora certa.

Toda a energia contida ali catapulta a banda para os holofotes nacionais em pouquíssimo tempo. E a efervescência das apresentações ao vivo cativaram fãs Brasil afora.

Isso sem falar no visual único, que os tornavam inconfundíveis.

Lembro que a primeira vez que os vi ao vivo foi um choque.

Um programa de tv voltado aos jovens realizava sua festa de aniversário no Anfiteatro Por do Sol. Eram 11h da manhã e eu e meus amigos chegamos quicando de bêbados.

A Cachorro subiu ao palco por volta das 15h. Era outono ou inverno, mas fazia um calor danado. E eles tocaram usando blazers e gorros de lã. Só de olhar dava calor.

Devem ter tocado 3 ou 4 músicas. Afinal o festival reunia grande parte das bandas que tocavam na rádio e as apresentações eram curtas.

E eles incendiaram o público.

Nem lembro como cheguei em casa.

Passei a semana querendo comprar o cd. Mas era muito caro.

Acabei baixando alguns anos depois, quando enfim tive internet em casa.

E ouvia na casa do Pinho, meu parceiro de aventuras e colega de banda na época.

As músicas que mais tocaram foram “Sexperienced”, “Lunático” e “De baixo do meu chapéu”.

Essa última tem um clipe hilário, que foi gravado nas redondezas do casarão citado acima e nas dependências do também já citado e saudoso bar Bambus.

Lembro que canções como Lili e Dia Perfeito (que anos depois a banda acabaria gravando no Acústico MTV bandas Gaúchas com uma participação mais do que especial da lenda Paulo Miklos) tocaram na rádio. Mas a música que mais me pegou foi a “(Os Doces Exóticos de) Charlotte Grapewine”, composição do guitarrista Marcelo Gross e que tem inacreditáveis 9 minutos e 42 segundos de pura piração.

Outra canção que merece destaque nesse disco, é a “Vai Vai T.Q. Dá”, também do Gross e que ao vivo não tinha fim.

O vocalista Beto Bruno costumava sair do palco enquanto a banda ficava fritando e levando o público a loucura.

Reza a lenda que alguns anos depois, a banda recebeu uma proposta quase irrecusável para assinar com uma nova gravadora, que estava contratando todos os artistas gaúchos da época. E que numa reunião, um dos executivos sugeriu que o som estava meio cru e propôs algumas alterações no material que a banda apresentou.

Nesse momento, o vocalista Beto Bruno levantou-se da mesa e mandou o tal executivo enfiar o material e suas alterações no seu aparelho excretor.

Mas isso, já é outra história.

(Hoje em dia eu já tenho esse cd. Mas não tenho cd player).

Para ouvir o álbum na íntegra


Expedição CoMMúsica

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