Subsolo Laboratório de Arte: espaço para expressão e criação

Subsolo Laboratório de Arte: espaço para expressão e criação artística em Campinas

Silvia Ferreira Lima
Fotografia de Raquel Pfutzenreuter

Silvia Ferreira Lima escreve a coluna “Cavando Ideias” – Subsolo Laboratório de Arte: espaço para expressão e criação – para publicação em sua coluna semanal na Expedição CoMMúsica.


Subsolo Laboratório de Arte: espaço para expressão e criação artística em Campinas

O Subsolo Laboratório de Arte é localizado na Rua Proença, 1000, próximo ao centro de Campinas-SP. Ocupa o subsolo de uma casa, daí o nome dado por Danilo Garcia, produtor cultural, para o empreendimento que ele e seu sócio, Prof. Dr. Andrés I. M. Hernández, curador cubano, que já está no Brasil há uns vinte anos, fundaram em 2018. O título e o nome do espaço já informam a que vieram: o Subsolo é um laboratório de arte. Por isso, está sempre aberto às ideias, experimentações e iniciativas dos artistas com os quais trabalham, dialogam, influenciam e renovam os ares artísticos do interior de São Paulo, Região Metropolitana de Campinas e arredores.

Aqueles que nunca pegaram um avião em Viracopos, não têm ideia de onde se localiza. Mas mesmo os que já pegaram avião em Viracopos, podem simplesmente não ter procurado conhecer a cidade e imediações. Embora seja uma região grande e bastante desenvolvida, onde se encontra de tudo o que há na capital paulistana, possui a vantagem de manter o ambiente tranquilo de cidade interiorana.

Alguns artistas estão no Subsolo Laboratório de Arte desde a fundação, seja expondo trabalhos, fazendo divulgação, ou mesmo criando e sendo estimulados pela orientação empática exercida por Andrés Hernández, cuja história é muito interessante. Químico de formação, Andrés trabalhou como professor até o final do comunismo em Cuba quando ficou sem grandes alternativas de emprego. Soube que existia uma vaga como segurança na Bienal de Cuba e, para este cargo, Andrés se candidatou. Esta atitude humilde a ao mesmo tempo arriscada deu o tom profissional para sua vida desde então.

Andrés conta que foi observado pela curadora responsável, que a partir do seu interesse foi delegando responsabilidades e, a partir daí, Andrés passou a fazer parte do universo da Arte. Veio para o MAM de São Paulo, onde exerceu a primeira curadoria em 2006. Vivendo no Brasil desde 1998, já teve parcerias com Tania Bruguera e Laura Lima. Doutor e Mestre em Teoria, Crítica e Produção em Artes Visuais, é autor da trilogia de Obras Comentadas – MAMSP, MUnAFU e AVANTI Campinas. Curador independente desde 2013 e curador chefe do Subsolo Laboratório de Arte. Em 3, 4 e 5 de março de 2021, ofereceu um Curso para orientar a exposição online Cerâmica & Livro de Artista. Desde então, está organizando o quarto volume de Obras Comentadas, para o qual espera o auxílio financeiro de apreciadores e parceiros a fim de publicar os exemplares.

O subsolo da casa em que fica o Laboratório de Arte é um imóvel da artista mineira Pama Loiola, que ao chegar a Campinas desejava ampliar o trabalho e a discussão dos artistas no espaço campineiro. Logo, ela alugou seu imóvel transferindo o ateliê em que trabalhava para as imediações de sua residência. A partir deste momento, passou a ser a primeira influenciadora das discussões e trabalhos artísticos. O Subsolo: Laboratório de Arte foi inaugurado em 29 de janeiro de 2018.

Em seu primeiro aniversário, o espaço contou com a exposição de Lina Bo Bardi em parceria com o Instituto Bardi – Casa de Vidro em 28 de janeiro de 2019. No seu segundo aniversário, foi a vez das obras e da presença de Regina Silveira com a exposição Surveillance em 28 de janeiro de 2020. E no terceiro aniversário, em plena pandemia, foi a vez da exposição A descoberta do Mundo, de Clarice Lispector, com fotografias cedidas pelo filho: o Dr. Paulo Gurgel e pelo Instituto Moreira Salles em 29 de janeiro de 2021; que foi também uma comemoração pelo centenário da escritora. A exposição contou não apenas com fotografias de Clarice Lispector, como alguns volumes de primeiras edições de obras e frases coladas nas paredes. Além disso, o filme, com trechos da primeira entrevista que a autora fez para a TV Cultura ficou passando no aparelho de TV em uma das salas e na parede dos fundos do espaço do Subsolo e foi projetada de modo a ser conferida na rua, a alguns metros de distância. Além disso, inaugurou o espaço virtual do Subsolo para exposições. Uma vez que as exposições ficaram reduzidas, mesmo com a utilização de distanciamento, máscaras e agendamento de público para visitação do espaço.

Vários artistas já passaram pelo espaço, que teve exposições memoráveis como a organizada por Andrea Mendes (primeira curadora externa ao Subsolo) e curadora da exposição no Sesi Amoreiras, de arte africana. No Sesi, estavam 57 obras, porém devido ao reduzido espaço, apenas algumas vieram ao Subsolo, cujo público pôde observar uma seleção destas obras presentes no Sesi, recebendo, no Subsolo, o nome de Majubá. Importante comentar que apesar de baiana, Andrea Mendes vive atualmente em Campinas, destaca seu trabalho de militância política e feminista. A exposição de arte africana, chamada Ogbon Itan (que vem do iorubá, com o significado de sabedoria, criação e arte), conforme denominada no Sesi, trouxe alguns objetos ao Subsolo, que valeu a pena pelas imagens, informação divulgada e beleza das obras.

Outra exposição de destaque ocorreu em 2020, apesar da pandemia e se chamou Nosso Corpo Ritual. A importância desta exposição foi o uso de diversas técnicas e linguagens misturando o trabalho cerâmico, instalação, performance entre outros. Para Andrés Hernández, o importante é que o artista experimente e teste limites. Este é um dos objetivos do espaço do Subsolo, conforme o mesmo Andrés Hernández informou numa live que realizamos no Instagram.

Nesta ocasião, uma das perguntas foi a respeito dos objetivos do Subsolo, outra foi a respeito das publicações, ou Obras Comentadas, que Andrés deseja fazer sobre Cerâmica & Livro de Artista.  Na mesma live, ele afirmou como a cerâmica possui uma visão utilitária no Brasil, diferentemente do que ocorre em outros países da América Latina. Por isso, seu interesse em divulgar o trabalho e incentivar as transgressões criativas dos artistas.

Perguntado sobre o que impulsionou este interesse, comentou a parceria com Cris Rocha e Marisa Carvalho, assim como a exposição Nosso Corpo Ritual, com os trabalhos de Antônio Pulquério, Erica Sanches e Yohana Oizumi, que abriu no dia 13 de novembro de 2020 e teve visitação por agendamento do dia 14 de novembro ao dia 15 de janeiro de 2021.

Vale a pena citar a exposição Ilhas Solitárias de Flávia Pircher, que trabalhou o limite da cerâmica, montando uma exposição de pequenas placas quase translúcidas presas no teto da sala. Os visitantes entravam e pisavam na sala, podendo inclusive ser atingido por um levíssimo pedaço de cerâmica que caía do teto e fazia uma trilha sonora quando atingia o chão, interagindo com todos no espaço do Subsolo Laboratório de Arte.

Pensando nisso, Andrés ofereceu um curso, com o objetivo de instigar os artistas e realizou uma exposição on-line em 3, 4 e 5 de março de 2021, reunindo artistas de diversos lugares, tão distantes quanto a internet pôde alcançar, a fim de incentivar estas transgressões cerâmicas, o que ele deseja demonstrar no atual volume das Obras Comentadas. Nesta exposição virtual, estão envolvidas artistas de Campinas bem como de outros estados e regiões do Brasil. Aqui demonstramos um pouquinho do trabalho de Ana Almeida, Alexandra Camillo, Bernadete Merino, Norma Vieira e Renata Amaral; embora esta exposição conte com dezessete artistas, estas foram as que disponibilizaram as imagens para publicação.

Ana Almeida
Alexandra Camilo

 

Bernardete Merino
Texto do original referente à obra de Bernadete Merino, na imagem acima.

Da série Grande Sertão Veredas – VEREDAS-  Bernardete Merino  2020/21

Veredas é um jogo/saga/livro.

Nove são os dados deste jogo.

Nos seus cinquenta e quatro lados/páginas a saga de amor e guerras está contada.

Nas FRATURAS encontramos as batalhas e dores, nas FACES COLADAS aparecem as lições aprendidas e pelos FIOS DE ARAME  amarramos as memórias e lembranças que não queremos deixar morrer.

Do livro Grande Sertão Veredas, J.G.Rosa

Ficha Técnica:

Massa cerâmica branco shiro, esmaltação baixa, arame de alumínio, pasta metálica bronze, queima elétrica 1050°

Conj. 42x42x12cm (nove cubos com 12x12x12cm cada um)


Meta-Morfose, de Norma Vieira
Meta-Morfose, de Norma Vieira
Meta-Morfose, de Norma Vieira
Meta-Morfose, de Norma Vieira
Comentários da artista sobre sua obra:

“Meta-Morfose A polinização das abelhas e vespas contribui enormemente em todos os aspectos da vida natural do planeta. Através de imagens artísticas e poéticas podemos polinizar nossas ações e despertar nas pessoas o desejo de se transformarem como crisálidas deixando seus “casulos” para se integrarem e se engajarem em projetos que lutem contra a devastação das florestas e do meio ambiente, protegendo os nossos santuários. No meu atelier, as vespas e abelhas fazem seus ninhos e quando eles caem, eu os fotografo e interfiro nessas imagens com desenhos digitais de linhas finas. Apesar de delicadas, elas representam a mesma força e resiliência das aranhas. O uso da argila, com suas diversas modalidades, me propiciou entrar no universo do tridimensional trabalhando esculturas e irradiando minha poética também para o universo dos objetos utilitários. Depois de um grande intervalo, volto à terra, às origens, com meus ‘casulos’” . (Norma Vieira, 2021)


Renata Amaral
Renata Amaral

Já pelas imagens acima, podemos observar o que o Prof. Dr. Andrés I.M. Hernández quer dizer com transgressões cerâmicas e livro de artista: a cerâmica também pode contar histórias e ser utilizada num sentido sequencial ou narrativo, assim como normalmente o livro de artista o faz. Podemos observar uma sequência através das imagens tridimensionais da cerâmica nestes trabalhos incrivelmente concebidos. E neste terceiro volume das Obras Comentadas: Transgressões Cerâmicas, não é apenas um mostruário ou portfólio dos e das artistas que expõem no Subsolo Laboratório de Arte, mas ele também traz análises e discussões das propostas artísticas que nortearam a concepção dos trabalhos.

Vale ainda mencionar os artistas internacionais que passaram pelo SUBSOLO, como: Alberta Whittle, com Walking Through the Shadow Eyes Open; Roxana Hartmann, com La Memoria del Tiempo; Alberta Whittle, com Between a Whisper and Cry e ainda Sara Ramo, com Tudo Que Há É Entorno, cuja exposição esteve presente na abertura do Subsolo Laboratório de Arte em 22 de março de 2018.

Podemos ainda citar outros artistas que expuseram no espaço como: Inês Fernandes, Del Pillar Sallum, Alba Corte, Valeria Scornaienchi, Regina Rocha Pitta, entre outros. Alguns que, inclusive, fazem parte do Conselho do Subsolo.

Este é um breve comentário e um apelo para a contribuição de outros artistas e público que desejem se tornar parceiros do espaço, bem como da publicação das Obras Comentadas: Transgressões Cerâmicas, com convocatória prevista para o próximo mês e lançamento previsto para o final do ano. Logo, aguarda colaborações para a realização de mais um projeto artístico de qualidade. Informações sobre o Subsolo Laboratório de Arte, suas exposições e artistas, podem ser localizados nos links a seguir:

Exposição Nosso Corpo Ritual

https://portalcbncampinas.com.br/2020/11/subsolo-e-palco-de-discussoes-artisticas-sobre-corpo-e-ritual/

 

LINA BO BARDI NO SUBSOLO

REGINA SILVEIRA NO SUBSOLO

CLARICE LISPECTOR NO SUBSOLO

Sobre Oficina de Curadoria de Andrés I.M. Hernández

Sobre o SUBSOLO LABORATÓRIO DE ARTE


Expedição CoMMúsica

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