Estação Black • O Hip Hop de Embu das Artes

Estação Black • O Hip Hop de Embu das Artes – 30 e poucos anos de resistência

Marcelo Kurts

Estação Black • O Hip Hop de Embu das Artes é texto de Marcelo Kurts para a Expedição CoMMúsica. Kurts escreve a Estação Black todos os sábados. Curta, comente, compartilhe e apoie o trabalho do parceiro e rapper Marcelo Kurts.

A história do movimento Hip Hop na cidade de Embu das Artes se dá a partir da metade dos anos 80, mais precisamente por volta de 1987, com a chegadas das equipes de som e as festas que ocorriam em associações, quadras de esportes e até mesmo os bailes de garagem.

O Rap era a música que os DJs tocavam e se organizavam em equipes de som como a Mix Power, Black Stayts, Mostra Som, Softy Music, New Rap, Black Time, Buldog Som, RCF, Show Case, Big Music etc. Em cada bairro ou adjacência havia duas ou mais equipes de som (a famosas Sound Systems), tendo maior destaque a região do São Marcos, Vazame, Jd do Colégio, Santa Tereza, Jardim dos Morais, Valo Verde e Santo Eduardo.

Os primeiros MCs foram os próprios DJs que entoavam os refrões nas festas, depois surgiram os grupos de Rap como Os Intocáveis, New Boys Rap, Rap Boys, por volta de 1989. No jardim do Colégio tinha uma chácara, local onde ocorriam bailes e festivais de Rap, quem tocava lá eram as equipes Softy Music, New Rap, Black Statys.

A primeira festa Black em Embu é datada de 1986 na lanchonete Sassá Dances no Jardim São Marcos, o DJ Carlinho, ex presidente da Câmara Municipal de Embu, fazia parte da Equipe Banana Power que, além de festas no município, também organizavam festas no Clube Sporting Ball em Taboão da Serra.

Embu é um município importante para a cultura do DJ, pois existem muitos discotecários que movimentam as festas de finais de semana por toda a cidade. Não dá pra citar nome, pois passam dos 50 DJs, fazendo com que a cidade seja uma grande potência do elemento DJ.

Em 1990 foi a febre do Grapixo (mistura de pichação com grafites), chegaram as crews ou grupos de grafite contagiando muitos jovens que desenvolviam traços e desenhos nos muros do município de Embu e São Paulo. Entre essas crews estavam os Alucinados, Os Najas, Os Kalígulas, Impekveis, Malvinas, Guns, Pigmeus etc.

Em meados de 1992, época em que o Rap do NWA e Public Enemy ditavam o comportamento politizado dos jovens, surgiram as Posses (grupos organizados de Hip Hop), sendo Os Donos das Ruas (Parque Pirajussara) e Poetas de Rua (Santa Tereza) as grandes influenciadoras de muitos que se tornaram adeptos ao Hip Hop de Embu.

Grupo Tribunal Negro

Dessas posses, destacamos os grupos Tradicionais do Rap que mais tarde mudou para Tribunal Negro, Radicais da Mortes, Os Sampa Rap e os dançarinos do Essencial Break, todos participantes da Posse Poetas de Rua. Remanescentes como o DJ Meio Kilo, Vulto ou Kaab, Crânio e Pixote (do grupo Organização Xiita) ainda protagonizam a cena do Hip Hop.

Já Os Donos das Ruas era composto pelos grupos Rap Boys, The Company MC, DMC New Boys, Primos Bicudos, Suicida Rap, União Rap, DJ Nero, MC Smal e os grupos femininos Rap Girls e As Sampa Rap, primeiras meninas a cantarem Rap em Embu. O líder da Posse Os Donos das Ruas era o saudoso poeta e ecritor Izael Marinho conhecido por El Mantos. Alguns personagens dessa posse continuam na ativa entre eles o DJ Baby, o dançarino Mateus Black e DJ Kurts que fazia parte do grupo Suicida Rap e da crew Impekveis.

 

As possses eram grupos organizados de jovens que discutiam política, realizavam debates, shows, arrecadavam alimentos para famílias carentes, atuavam no combate ao racismo, alertavam sobre o mal causado pelo uso de drogas, respeito às mulheres etc.

No centro de Embu havia MCs que movimentavam a cena, tendo destaque o MC Birajara que gravou o primeiro Rap falando sobre a cidade das Artes, onde pode-se ouvir no Youtube procurando por RAP DO EMBU.

Na metade dos anos 90, no Jardim São Marcos, quem protagonizava com empoderamento feminino eram as irmãs Deise e Denise que formaram o grupo Crítica Negra, nessa mesma época surgiu a Posse H2PM liderada pelos Rappers Dinho, Gavião e Alex.

O grupo Crítica Negra não fazia parte da Posse H2PM, mas corriam lado a lado em shows, debates e ações ligadas ao Hip Hop.

As meninas do Crítica Negra tiveram grande protagonismo não só em Embu mas em toda capital SP chegando a serem entrevistadas pelas Revista Vogue e Revista Rap Brasil.

DJ Denise, do grupo Crítica Negra

Já a Posse H2PM, que seguia uma linha política marxista se destacou na área social sendo responsável pela implantação do primeiro cursinho pré-vestibular de Embu, o “Voz da Resistência”, além de ter sido uma das responsáveis pela elaboração da lei que foi efetivada com o feriado municipal em tributo à Consciência Negra.

Nesse mesmo período, o rapper e ativista social Vulto ou Kaab do grupo Tribunal Negro fundou a Biblioteca ZUMALUMA que teve grande importância em projetos educacionais, sociais e também na área da saúde. Entre seus projetos, a Zuma contava com o Ecoestrondo, Sarau da Zuma e BatucaZuma. Tiveram participação direta na implantação do projeto Hip Hop versus AIDS da prefeitura de Embu no começo do século XXI.

Em 1997, DJ Kurts, DJ Meio Kilo, Mano Escobar, Pew Mark e DJ Denise promoveram o primeiro festival denominado Hip Hop Contra a Violência que contou com 6 edições até 2002. Passaram por esse festival nomes consagrados do Hip como Posse Mente Zulu, Mano Brown, Sabedoria de Vida, Filosofia de Rua, RZO, Armagedon, Z.África Brasil, Comando DMC e tanto grupos de destaque da época. A proposta do festival era o alerta sobre a violência que imperava no município.

Contemporâneo a essa época, no centro de Embu surgiu a Posse FNR que se destacou pela realização de grandes shows beneficentes de Hip Hop. O festival “Hip Hop na lutra contra a Fome” arrecadava toneladas de alimentos que eram destinados às famílias carentes da cidade. Isael Alves, RL, MC Célio e MC Buda eram os responsáveis por esse grande projeto que lotava a praça da Lagoa com a participação de grandes personalidades como o Rapper Sabotage, SP Funk, RPW, etc.

O Hip Hop, além de grande destaque sócio cultural também se projetou na política de Embu, o então prefeito Geraldo Cruz e seu secretário de Cidadania Chico Brito nomearam o DJ Kurts como Assessor da Juventude, DJ Meio Kilo como representante da comunicação e Dinho como coordenador do Centro de Referência da Juventude na proposta de desenvolver políticas públicas para os jovens da cidade.

Sob organização da prefeitura o Hip Hop promoveu diversos workshops de grafite, Break, DJ e MC, além de participarem ativamente no Fórum Social Mundial entre 2002 e 2003 na cidade de Porto Alegre. Na ocasião existia na secretaria de cultura municipal o Núcleo de Hip Hop liderado pelo DJ CJay C, onde rolavam oficinas, shows e intercâmbios com outras cidades do Brasil e da América Latina.

Por volta de 2004, ocorreu o festival Cultura Urbana que contou com a participação especial das bandas Ratos de Porão, NX Zero e do grupo de Rap DMN.

O Hip Hop de Embu é bastante representado até os dias atuais. Uma nova geração se organiza em grupos para a realização de Batalhas de rimas, saraus, grafitagens, gravação de vídeos clipes, shows etc.

Miguel Santos e KaBatistta no Sarau Artesanal

No centro de Embu, sob liderança dos jovens Diego Harp, Rogério (do grupo Invasores) ocorre a Batalha das Artes, onde MCs de todas a região se degladiam em rimas bem desenvolvidas. Sempre que posso, estou lá participando e contemplando esse evento.

A nova geração do Hip Hop é muito voltada pro Rap, Skate e Trap, mas existe uma participação muito forte de grafiteiros que se destacam não somente em Embu mas pelo planeta. Mazola, Molão, Image, Mirage, Nilo, Crica são alguns dos artistas que mantém acesa a chama o grafite na cidade com trabalhos reconhecidos internacionalmente.

Shakur – Tela pintada pelo artista Molão

O Hip Hop de Embu atualmente segue o pensamento de que outros elementos da arte são importantes como no caso a Fotógrafa Giovanna Milvoltz que desenvolve ensaios fotográficos, ela é responsável pela agência Black Movement que cuida da estética do jovem negro da cidade. MC Deivão, KaBatistta, Poetry MC são alguns dos respeitados Hip Hopers que ainda acreditam na cultura assim como MC Patropi, MC Skater Rap e MC Magu acreditavam nos anos 90.

Em memória dos DJs Naice, Steto, do Rapper Big Dablio e do poeta Izael Marinho EL Mantos.

Agradecimentos aos DJs Bolinha, Ednaldo, Perna Longa, M3, Marciano, Perna Longa, Fran, Nenê, Rocafer, Cacau, Pulga, Leitão, Melão, Carne Frita, Cidão, Goney, Augusto Pereira, Tico, Serjão, Carlinhos, Meio Kilo, Billy Haw, Denise, Delson, Café, Marina, Kau, DJ Mi, Galego, Pesado, DJ Zy, Wilson, Correria, Renato Neri, Joab.

Estação Black • O Hip Hop de Embu das Artes é texto de Marcelo Kurts para a Expedição CoMMúsica. Kurts escreve todos os sábados a Estação Black. Curta, comente, compartilhe e apoie o trabalho do parceiro e rapper Marcelo Kurts.


Expedição CoMMúsica

3 thoughts on “Estação Black • O Hip Hop de Embu das Artes

  1. Anônimo says:

    Parabéns Dj Kurt’s pela a resistência e, por cultivar essa linda e brilhante Cultura. Que a cada momento conquista mais e mais pessoas e marca presença em todo território artístico. Seguimos “Comusica”.

    Responder
  2. Rafael Pires says:

    Mano ! Que texto informativo. Moro no Taboão e conheço a História do Hip Hop de Embu. Foram muitos os eventos realizados por esses monstros que ainda resistem e acreditam na cultura de rua. Parabéns !!!!!

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    1. CoMMúsica says:

      Valeu, Rafael! A coluna Estação Black está voltando e Marcelo Kurts conhece de longa data a história do hip hop. Assine nossa newsletter para não perder nenhum post 🎶

      Responder

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