Cavando Ideias: Eu Artista

Cavando Ideias: Eu Artista

Cavando Ideias: Eu Artista
Texto e fotos da autora, Silvia Ferreira Lima

Cavando Ideias: Eu Artista – Poderia começar este artigo dizendo que agora a artista sou eu. É uma forma de colocar francamente o universo que eu admiro e pelo qual fui laçada. Sim, a arte lança um chamado de sereia, seu canto é magnífico. Creio que os músicos podem falar melhor disso. Mas os artistas visuais também ouvem. 

Ouvimos quando abrimos a janela, quando acendemos um incenso e até mesmo quando tomamos uma cerveja. Na realidade, é muito mais fácil ouvir este chamado quando estamos com a autocrítica adormecida e nosso desejo se coloca mais forte do que nossa vontade.

 Afinal, artista vive do quê? Tocando de bar em bar, isso quando é pago e não ouve reclamação daqueles que vão a um bar ou restaurante sem desejar realmente ouvir algo além de suas próprias vozes ou sua conversa com o/a parceiro/a. Poucos vão à pista e dançam, principalmente no início da noite, ou em determinados espaços. Muitos quando vão a um show no qual tocamos como cover, só reclama que está lá para ouvir a banda principal. Sim, não é fácil! Não é fácil conseguirmos um show com muita dificuldade e ainda não sermos devidamente pagos ao final. É, isso também é comum. Isso porque não toco nenhum instrumento nem canto, mas observo, e já vi acontecer tudo isso…

Performances ou espetáculos teatrais são ainda menos valorizados. Já encontrei vários bons atores e atrizes que conseguiram apresentar seus espetáculos porque participam de um projeto que leva o teatro às escolas. Sinceramente, acho isso sensacional! A arte precisa ser pública. A arte é pública. E é de todos. Precisamos valorizar nossos momentos de sensibilidade, de catarse, de emoção. Os seres humanos são principalmente fontes de emoção. Por isso mesmo precisam da arte. Os romanos já diziam que o povo precisa de pão e circo. O problema é a que tipo de circo o povo tem acesso.

Mesmo as artes visuais, vivem de projetos culturais e educacionais. Quando conseguem emplacar um projeto numa praça ou numa escola, estão felizes. Só assim começam a manter seus ateliês e materiais de trabalho que sempre são caros. Afinal, papéis, tintas e telas preparadas são caras. Além disso, os artistas precisam viver. E como fazem para despontar? Nosso maior reduto são mesmo as escolas públicas, e ainda bem que elas existem. Nossa maior fonte são os projetos culturais. Pouco valorizados pelos governos. Como vive o artista?

Na maioria das vezes, o artista vive dos seus desejos, mais do que das suas vontades. E ser artista é difícil! Quanto tempo e dinheiro não se investe aprendendo teorias visuais, musicais, artísticas, instrumentos, técnicas? Sim, além disso, há sempre um tempo de pesquisa e de elaboração de qualquer projeto artístico. Mas, sabendo disso tudo, por que insistimos? Vou confessar que é nosso modo de cura. Nossa forma de seguirmos vivos e em frente mesmo sofrendo diversos tipos de problemas materiais, físicos, emocionais, financeiros.

E não somos nós que escolhemos a arte, ela que nos escolhe, sem um tempo marcado para fazer. Talvez porque não damos realmente atenção ao seu chamado. Agora vou contar minha história e a história de minhas escolhas.

Desenho desde sempre. Quando criança cheguei a desenhar histórias em quadrinhos em rolo de papel higiênico porque estava na praia, chovia e não tínhamos o que fazer. Lembro que meu primo caçoou que aqueles desenhos serviam para limpar a bunda… Continuei desenhando por muitos anos. Mas minha autocrítica e minha falta de confiança me fizeram estudar Letras. Afinal, sempre gostei de ler e escrever também. Aliás, para mim, a leitura e o desenho pertenciam ao mesmo espaço. Entrei na faculdade, passei por muitas tribulações, mas consegui terminar o curso. Então, fui fazer Mestrado: Comunicação e Semiótica na PUC. Estudei a obra Galáxias de Haroldo de Campos e escrevi um super trabalho. Bom, foi na década de 90, quando o Mestrado durava quatro anos e o grau de exigência para terminá-lo era muito maior. Mesmo assim, encontrei algumas pessoas que pediram validade como Doutorado. Mas eu não pedi.

Segui em frente e comecei o doutorado umas três vezes: uma delas na ECA/USP. No entanto, novos e enormes problemas surgiram; a estas alturas foi um problema de vida ou morte. Isso já foi no início do século XXI. Doze anos depois, voltei a estudar. Mudei de cidade, de vida, e fui fazer Artes Visuais. Finalmente, o peixe encontrou seu habitat. E acabei estudando visuais porque foi um chamado da Arte. Comecei estudando Filosofia: Deleuze e Guatari; sem contar Freud, Jung, Charles Sanders Peirce, e vários outros. Sempre adorei filosofia. Aliás, um excelente trabalho artístico sempre tem um viés filosófico. Digo pelas minhas escolhas e de vários colegas. Embora, os caminhos e escolhas sejam inumeráveis. Foi bem o que aprendi com Deleuze: toda a gama de possibilidades que existem para a criação de uma história ou a construção de uma sociedade. 

Logo, quando chegamos num momento em que todas as instituições parecem falidas, o que resta é apenas o convite a um novo começo e um retorno aos primórdios para voltarmos a nos encontrar. Para os seres humanos é importante reencontrar o que realmente importa na sua essência e que ficou esquecido ou desvalorizado em algum momento. Voltar às ações primitivas é uma necessidade. Buscar novas linguagens inexploradas ajuda nosso inconsciente a recuperar o que foi perdido, e que continua sendo necessário para a realização do ser.

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Assim, a arte me chamou. Resgatei minhas viagens entre Ribeirão Preto e São Paulo, quando meus pais moravam no interior e encontrávamos estâncias no meio do caminho onde eu apreciava as peças de madeira entalhadas. Nesta época, eu tinha de cinco a oito anos. Mas aos quinze, viajamos para o nordeste numas férias. Fomos a Salvador, Fortaleza, Recife e João Pessoa. Passeando pelas feiras de artesanato, minha mãe encontrou um baú de madeira maravilhosamente entalhado com a cidade de Olinda. Dizia que era para eu e minha irmã (que tinha uns doze anos, na época) guardarmos nosso enxoval. Nunca fizemos enxoval, nem casamos na igreja. Mas eu lembro de ouvir aquele sonho da minha mãe. Bom, atualmente, cada uma de nós tem em casa um baú destes. Continua maravilhoso!

Então, quando comecei a estudar gravura com a Luise Weiss, comprei uns pedaços de mdf e comecei a entalhar os órgãos vitais: coração, cérebro, pulmão, rins, útero (afinal sou uma mulher) e pâncreas (sou diabética insulino-dependente desde que tinha uns vinte e três anos). Comecei realmente pensando em mim, no meu corpo, na minha saúde, na força interna que eu deveria ter para superar outro momento difícil que estava vivendo. Sinceramente, foi um dos meus momentos de depressão. E entalhei da forma como eu tinha visto no nordeste, que conhecia. Mesmo porque confesso que até então eu não tinha estudado nenhuma teoria de história da arte ou mesmo história da gravura, fui estudar depois.

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Mas fiquei quatro anos estudando o corpo, estudando a arte, segundo Didi-Hubermann e Aby Warburg. Mais teoria se somando aos meus conhecimentos. E fiz muitas matrizes, de várias formas e modos. Tentei inclusive fazer sobreposição de matrizes, mas as imagens não desejavam ficar desta forma. Sim, os objetos e as imagens falam conosco, só precisamos prestar atenção e nos abrirmos para esta possibilidade de linguagem. É diferente, não usa a língua escrita ou falada, não usa o raciocínio como o conhecemos desde Descartes: “Penso logo existo.”

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Não, a linguagem da arte não é desta forma, de jeito algum. E cada um deve descobri-la sozinho, afinal, não existem duas obras de arte iguais. A gama de diferenças é tão extensa, que jamais podemos comparar a produção de um artista com a produção de outro. Sempre depende do indivíduo, de suas habilidades, de suas sensações, de seus sentidos. De fato, passamos a viver um sexto sentido, que não se enquadra em nenhum outro que nos ensinam na escola.

Mesmo assim, sou professora. Dei aulas na Universidade por vinte anos e no Ensino Fundamental II por dezoito. Continuo ensinando os alunos de Ensino Fundamental. Gosto da juventude. Gosto das pessoas. Mas a sensibilidade, a empatia, a criatividade que deveriam ser mais valorizadas do que as regras da língua. Então, perdi o prazer em ensinar. Mesmo gostando do ambiente, dos colegas, dos alunos, ser professora de Português não me dá tanta realização quanto o desenho, o entalhe de matrizes, a entintagem, a preparação das provas, a impressão, a colagem, o recorte, todas as habilidades táteis e visuais que desenvolvo na Arte. Lugar em que realmente posso assumir a tristeza ou a alegria. A fantasia ou a depressão. O sonho ou o raciocínio para transformar todos os sentimentos represados em algo bonito e admirado pelas outras pessoas. Algo que realmente possa despertar o melhor de nós. 

E estes procedimentos são capazes de invadir meu coração de alegria, portanto eu me sinto recompensada, ainda que esteja com problemas. Eu me sinto útil, mesmo não fazendo algo tão rentável. Eu me sinto com um poder divino quando consigo transformar a matéria. Fazer do lixo de embalagens de suco ou leite, matrizes para imprimir. Fazer de pedaços de madeira abandonados na rua, matrizes lindas e cheias de vida, mesmo que esta árvore já não esteja por ali. São formas de vida que prevalecem, que sobrevivem, principalmente em momentos tão difíceis como a pandemia em que vivemos. A morte de pessoas que amamos porque não resistiram ao vírus, ou porque não foram vacinadas corretamente ou porque ninguém tem certeza de como cada pessoa pode resistir ao vírus ou não.

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Leitores, aqui está meu desabafo e a história de como a arte me encontrou. De como eu me modifico a cada vez que exploro novos materiais ou novas linguagens. O quanto eu sinto e percebo a cada vez que dou chance para a vida e o planeta conversarem comigo. Sim, eles conversam. Não é loucura. E se for, já estou medicada. Aqui também está um pouco da história da gravura que doei para a Expedição e que aproveito para divulgar e incentivar a participação de vocês para adquirir a rifa a R$10,00 (Vale bem mais do que isso!). Contando minhas ideias, minha filosofia, meu sonho de que precisamos nos ajudar para seguirmos em frente. E que a arte nos chama e nos cura. Saúde para todos!

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Expedição CoMMúsica

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