Como foi a experiência de publicar meu primeiro livro

Como foi a experiência de publicar meu primeiro livro

Michele Fernandes
Editora -Michele Fernandes

Algumas coisas nascem com a gente. Dizem os meus pais que antes de eu aprender a escrever já produzia os meus próprios exemplares – folhas de papel coladas umas às outras e cheias de rabiscos. Com treze anos, escrevi meu primeiro “livro”. A partir dele, eu soube que podia construir uma história longa do início ao fim.

Ao longo do tempo, houve uma série de tentativas, entre poemas, letras de música, histórias em quadrinhos e, um pouco mais tarde, os contos, meu gênero preferido para a escrita. Com a faculdade de Letras, eu pude me aprimorar e ter participado de um projeto voltado a contos contemporâneos só me fez ter certeza de realmente ser esse meu objetivo.

Agora para tudo!

Preciso lembrar vocês de uma coisa, um mero detalhe, algo que poderia passar batido, e passou por algum tempo.

Eu não sou o perfil de gente que vira escritora: como mulher de origem humilde, as coisas não seriam fáceis. Ao finalzinho da faculdade, eu engravidei e, devido a isso, por muito pouco – muito pouco mesmo – eu quase não me formei. A partir daí, tudo mudou: envolvida com meus empregos, criação dos filhos (em seguida, viria mais um) e o tempo perdido do deslocamento, pois quase sempre morei longe do meu local de trabalho.

Enquanto eu engavetava sonhos, os anos foram se passando. O desejo de fazer um mestrado, por exemplo, ficou perdido em algum limbo. Mas meus textos relutaram. Até hoje, de vez em quando, encontro um poema ao abrir uma agenda velha em qualquer página aleatória. Alguns foram embora nas faxinas das gavetas, outros jogados na sucata em algum HD de computador obsoleto.

Felizmente, não perdi tudo. As redes sociais foram chegando e eu fui encontrando espaço para compartilhar algumas das minhas criações – uma comunidade no Orkut, um blog, uma página no Facebook, minha escrivaninha no Recanto das Letras… Assim, fui começando a levar um pouco dos meus escritos a um público.

Mas calma!

Esses foram apenas os primeiros passos. Tudo ia acontecendo em doses homeopáticas enquanto o tempo não dava trégua e passava velozmente.

Em 2017, parei tudo o que fazia. Não! Erro em falar isso! Na verdade, fui parada!

Eu estava morando na serra gaúcha quando minha mãe foi diagnosticada com um câncer de endométrio, passou por cirurgia, radioterapia, quimioterapia e precisou de muitos cuidados. Foi por ela que parei! Fui parada! Cheia de medos e angústias em função da doença, larguei meu trabalho para me dedicar a ela e voltei para a capital onde já não mais me reconhecia como pertencente.

Afundei…

Afundei na escrita, na verdade. Escrevi mais de quarenta contos longos na tentativa de colocar para fora todos os sentimentos que me afogavam. Defini meu papel no mundo, era oficial: eu sou uma escritora.

No entanto, esse é o início de um novo problema.

Fui descobrindo aos poucos que o espaço no mercado editorial brasileiro é muito restrito. Sendo mulher, isso seria ainda mais complicado. As estatísticas informam: a cada dez livros publicados no Brasil, mais de sete são de autoria masculina. Uma boa saída seria a autopublicação, mas, sem dinheiro para investir, via mais portas se fechando na minha frente.

Nesse período, acabei descobrindo o Kindle, plataforma para leitura de e-books, onde poderia publicar meus contos, deixando apenas uma comissão para a empresa. Aprendi a fazer capas, diagramar, registrar direitos autorais – tudo sozinha.

Parece que resolvi meus problemas, não é mesmo?

Não.

Acabei ficando muito frustrada, pois eu não tinha público. Meus livros se perdiam nas rotas errantes dos logaritmos. Conseguia alguma leitura ao disponibilizá-los gratuitamente, mas esse tipo de cortesia era limitado a cinco dias e, nos demais, ficavam esquecidos. Em poucos meses, eu me decepcionei com o sistema e precisei zerar meus planos e começar de novo.

Minha nova estratégia foi construir uma audiência. Para isso, criei uma conta no Instagram – @contosdesamsara –, um canal no YouTube – este anda abandonado, mas tenho planos de resgatá-lo em breve – e um site – www.contosdesamsara.com.br. O perfil no IG prosperou para além do imaginado. Por meio dele, tive espaço para me encontrar como produtora de conteúdo, além de conhecer muitas pessoas que, de um jeito ou de outro, foram me ajudando a abrir caminhos. No Instagram, foi também onde esbarrei com o post de uma editora nova, voltada para a publicação de mulheres.

Nessa altura, eu tinha colocado na cabeça que o meu próximo passo seria encontrar uma editora para publicar meu livro. Havia fila de editoras batendo na minha porta e se oferecendo para publicar. Eles estavam dispostos a lançar meu livro mediante o pagamento de um valor solicitado, uma barreira intransponível para mim. Eram prestadoras de serviços.

As editoras tradicionais pagam todas as despesas e, em muitos casos, adiantamento de direitos autorais. Elas fazem uma seleção bastante criteriosa. As maiores só são acessíveis por meio de indicação, o que me tirava todas as possibilidades por ser apenas uma ilustre desconhecida dentro do meio editorial.

Mas a Editora Voz de Mulher fazia uma ponte entre esses dois mundos. Ao saber da abertura para recebimento de originais, conversei com a Telma Ventura, editora chefe. Ela me disse que trabalhava com duas modalidades a depender da decisão da própria empresa: a escritora poderia ter de bancar cinquenta por cento dos custos da publicação ou, se assim definido, a editora bancaria todos os gastos.

Enxerguei uma ponta de esperança. Dos mais de quarenta contos escritos, escolhi três. O meu critério foi, por saber do viés feminista da editora, o papel que as mulheres desempenhavam no enredo. Não foi difícil escolher.

O primeiro conto se chama “Sobre Gaiolas e Janelas” e traz uma mulher sem memória encontrada na beira do rio, desacordada. Não se sabe nada dela, nem ela sabe nada do mundo. Criei essa história para tentar confrontar os padrões estabelecidos. O amor e a liberdade são os temas principais. Acredito que eu estava tentando rever conceitos quando escrevi essa história.

O segundo conto é “As Aventuras da Incrível Mulher Alienígena”. Nessa história, a protagonista chamada Melissa narra a sua trajetória em duas camadas: como uma alienígena cheia de superpoderes e como uma mulher, mãe, universitária que tenta superar os próprios medos para ajudar uma colega assediada por um professor.

O último conto tem o título “Magnum Opus”. É uma história de amor entre Monalisa e Leonardo. Os nomes dos protagonistas não são aleatórios, o enredo é entrelaçado com a arte. Outra figura importante nessa história é o narrador. Na verdade, uma narradora muito poderosa e também divertida. Ao escrevê-lo, eu estava compreendendo o poder que a escrita me dava.

O título “Conta Comigo!” me pareceu unir todas as ideias: contar histórias, contar com alguém, pedir para vir junto. Essa era uma ideia muito presente em mim, depois de ter contado com tantas pessoas nesse caminho tão longo.

O resultado da seletiva chegou três dias depois da data marcada, quando eu já estava certa de que tinha ficado de lado. Era um domingo. Abri o e-mail, e lá estavam as palavras que nunca vou esquecer:

“A Editora Voz de Mulher tem interesse em publicar seu livro.”

Gritar? Correr? Pular? Quando algo que se almeja tanto acontece, a reação é imprevisível. Eu me esqueci até da possibilidade de eu precisar pagar metade dos custos e, mesmo assim, comecei a contar para toda a família sobre a minha conquista. A editora era pequena, mas a concorrência havia sido grande. Foram mais de trezentos originais enviados, e o meu estava entre os escolhidos.

Na mesma semana, Telma Ventura marcou uma reunião comigo. Ela disse que meu livro era incrível, apto a concorrer em concursos, pura literatura. Por causa disso, a editora decidiu bancar cem por cento dos custos da edição.

A seguir, o processo foi se estendendo. Estarmos no meio de uma pandemia foi um obstáculo a mais. A primeira data de previsão de lançamento que me foi passada seria para final de janeiro ou início de fevereiro de 2021. Logo mais, obtive nova data: março, em virtude do Dia Internacional da Mulher. Um lockdown em São Paulo fez adiou para junho. No dia dezoito, fizemos, finalmente, a live de lançamento.

Será que agora todos os problemas acabaram?

Não, apenas mudam os desafios.

Se meu desejo antes era publicar o livro, agora eu anseio por fazê-lo chegar às mãos do maior número possível de pessoas. Quero vê-las aprovarem meu jeito de escrever e se deixarem encantar por essas histórias que, como muitos já me disseram, são surpreendentes, necessárias e diferentes de tudo.

O caminho é longo, é uma vida inteira, e eu não quero que isso termine.

Nunca.


Expedição CoMMúsica

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