Conta Comigo: Entrevista com a escritora Carla Guerson

Conta Comigo: Entrevista com a escritora Carla Guerson

Conta Comigo! é a coluna semanal de Michele Fernandes. A autora escreve todas as quintas e para acompanhar os posts diários, basta se inscrever em uma de nossas listas de e-mails.

Conta Comigo: Entrevista com a escritora Carla Guerson

Ser mulher em uma sociedade marcada pelo patriarcalismo é um desafio a cada passo dado. Guardamos desejos, angústias e medos e precisamos de um espaço para colocar todos esses sentimentos para fora. A arte pode ser uma válvula de escape. O problema é que também somos barradas quando tentamos nos expressar artisticamente.

Passamos, no entanto, por um momento em que cada vez mais mulheres estão conscientes dos espaços a serem abertos para conseguir estabelecer o seu lugar naquilo que querem e não onde lhes foi imposto. E, se sozinha é difícil, quando nos unimos, ficamos fortes e seguras dos nossos atos.

Tenho aprendido isso de diversas maneiras, mas ter participado da coletânea “De Corpo Inteiras” junto de mais seis escritoras ligadas ao Coletivo Escreviventes foi a experiência mais intensa que já tive o prazer de participar com outras mulheres.

Sendo assim, a partir de hoje, na Coluna Conta Comigo!, você conhecerá as escritoras do Coletivo Escreviventes com o objetivo de mostrar como essa vivência pode ser transformadora, libertadora e produtiva.

A primeira escritora a ser apresentada é Carla Guerson, idealizadora do coletivo.

Conta Comigo: Entrevista com a escritora Carla Guerson
Carla Guerson

Conheça a autora:

Me chamo Carla Guerson. Sou feminista, escritora, geminiana, mãe, leitora compulsiva e uma apaixonada por histórias e estórias. Sou formada em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo e em meio às minutas jurídicas, escrevo diários, poemas, letras de música, cartas de amor, listas de supermercado. Tenho textos publicados em revistas literárias, coletâneas, antologias. Publiquei um livro de poesia na Amazon (“Lúcida, sem perder a loucura”) e estou lançando um livro de contos, “O som do tapa”, pela editora Patuá.

 

O que levou você para o mundo da escrita?

Antes de começar a escrever, eu comecei a inventar histórias na minha cabeça. Lembro de ainda muito novinha (talvez cinco ou seis anos) deitar na cama e passar muito tempo vivendo dentro da minha cabeça antes de dormir. Me lembro da sensação boa de viver essas coisas que não aconteceram e acho que isso foi o que antecedeu à escrita. Gostava de reviver as cenas do dia, de refazer algumas coisas que vivi, mudando os acontecimentos, os personagens, faço isso até hoje, é um hábito mesmo.

Tendo sido alfabetizada, encontrei nos livros parte da satisfação de viver uma vida paralela, prazer que carreguei por muitos anos e ainda carrego. No entanto, a leitura não dava conta de colocar para viver esses personagens que me habitavam. Foi aí que apareceu a escrita, que é meu jeito de compartilhar com o mundo as histórias que carrego e de tornar verdade as minhas mentiras (ou de tornar mentira as minhas verdades).

Capa do livro De Corpo Inteiras, coletânea do coletivo Escreviventes.

Na sua opinião, qual é a maior dificuldade entre as autoras contemporâneas ao escrever e publicar suas obras?

A primeira dificuldade seria o escrever. Para escrever é  preciso tempo, energia, dedicação. A rotina, por anos, me impediu de levar esse projeto à frente. A sobrecarga da maternidade, da vida de “dona de casa”, as mil atribuições. Mas, quando o desejo pulsa, ninguém segura. Após uma decisão de ler mais mulheres, comecei a ter contato com um tipo de escrita que fazia sentido pra mim e percebi que precisava bancar esse desejo, pois eu não estava só.

Achei que a parte mais complicada de ser escritora seria escrever ou concluir um livro, mas isso é apenas parte da vida de uma escritora. Publicação, divulgação, relacionamentos, redes sociais, são várias as questões a se administrar para que um livro chegue ao mundo. Acho que a maior dificuldade hoje, para mim, é essa. E percebo que para muitas outras escritoras também.

 

Como é a experiência de fazer parte de um coletivo de mulheres escritoras como o Coletivo Escreviventes?

A vontade de fazer parte de um coletivo veio justamente do que falei acima, de perceber que eu não estava só, que existiam outras como eu: que desejavam escrever, ter sua voz reconhecida, ser lida. E a realidade foi ainda melhor que a expectativa. Encontrei um grupo de mulheres sensíveis, fortes, dedicadas e muito competentes. Me surpreendo a cada dia com nossas identidades e nossas diferenças, com o talento de cada uma. Recebo um apoio que nunca imaginei receber. Somos como um corpo e queremos crescer juntas. É o que eu sinto. Então, acho que a experiência tem sido maravilhosa.

 

Qual foi o maior desafio ao se escrever sobre o corpo feminino?

O corpo tem carregado um peso para nós, mulheres, por muitos anos. Respondemos por este corpo: pela nossa aparência, pela nossa sexualidade, pela nossa maternidade. O corpo feminino é cobrado, é visado, é controlado. Escrever, enquanto mulher, sobre esse corpo que habito, é libertador. Me permite tomar posse sobre ele e fazer o que eu quiser. Pensar as diversas realidades da mulher a partir do corpo, foi o desafio que nos propomos na Coletânea e foi uma experiência incrível que passou pela necessidade de nos libertarmos das amarras que nos impunham.

 

Conte como foi o seu processo criativo em um dos contos presentes na coletânea “De Corpo Inteiras”.

Sou apaixonada pelas pessoas e pelo que elas carregam, os traumas, os medos, as maluquices. Gosto do diferente, do que aquela pessoa tem de especial, de triste, de nojento. O que sai do padrão, o que está oculto, o que não pode ser dito, tudo isso me interessa. Ao escolher a parte do corpo sobre a qual eu queria escrever, eu tentava pensar o que estaria por trás daquela parte. Quando escrevi sobre o pulmão, por exemplo, imediatamente imaginei-me com falta de ar e busquei uma história que me trouxesse essa sensação de sufocamento. Uma mulher que grita, que perde o ar – foi o que imaginei. E a história veio a partir daí: sou uma mulher à janela precisando gritar para que a menina corra, para que ela saia, mas não tenho fôlego para isso. Para mim, tem um simbolismo nesse conto, que é como eu me sinto às vezes: sem fôlego, sem força para gritar. Mas, ainda sim, eu grito.

 

O que significa para você ser uma escritora mulher em um mundo ainda dominado pelos homens?

Em uma palavra: resistência.

 

Qual dica você daria para as mulheres que desejam começar a escrever.

Não tenha medo de bancar seu desejo. Escreva, sem se questionar o que virá. É muito difícil escrever pensando numa publicação ou escrever imaginando o que vão dizer do seu texto. Acredito que devemos escrever sobre o que vive em nós, para que seja sincero, digno, completo. Não dá pra ter medo de se expor, de se colocar.

 

Cite uma frase marcante de um de seus contos.

Vou citar uma frase do conto que mais gosto, “Deusa”, que é um conto sobre uma artista, alguém que como nós, escritoras, usa da arte para existir:

“O banal não lhe interessa, ela o destrói e molda de novo, de novo e de novo. Na palma da mão, a vida e a morte de cada uma de suas criações, ao crivo do ideal que não se apresenta.”

 

A coletânea “De Corpo Inteiras” está disponível no Amazon por R$5,99 ou gratuitamente para assinantes do Kindle Unlimited. Clique aqui para adquirir o seu e-book.


Expedição CoMMúsica

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