Recomendação de leitura: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

Recomendação de leitura: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

Recomendação de leitura: A Casa dos Espíritos, de Isabel AllendeIsabel Allende não é apenas uma mulher que conta estórias, a sua vida também está intrincada com a história do país em que cresceu. Filha de diplomata e parente próxima de um ex-presidente, a sua trajetória de vida é marcada por rupturas políticas, em especial, com o golpe militar que tirou Salvador Allende do poder no Chile.

O romance “A Casa do Espíritos” acompanha três gerações de mulheres – Clara, Blanca e Alba (atenção aos significados similares dos nomes) – que têm laços não apenas sanguíneos, mas também espirituais, mágicos.

Em oposição a elas, Esteban Trueba, o patriarca misógino, rico e conservador é quem oprime a linhagem feminina. É um homem violento, que assusta, mata, explora os seus funcionários e espalha filhos pelas terras de Las Tres Marías, estuprando as pobres camponesas.

As violações de Trueba aparecem em todos os níveis, até mesmo no estrutural. Ele interfere na narração, que ocorre à princípio em terceira pessoa, trazendo e defendendo o seu ponto de vista em vários momentos narrados por ele em primeira pessoa.

“A Casa dos Espíritos” é um relato da opressão sofrida pelas mulheres, mas também denuncia a exploração dos trabalhadores e, numa perspectiva mais ampla, da América Latina. Em momento algum, é esclarecido em qual país se desenrola o romance, embora as similaridades com a história do Chile sejam óbvias. A falta de definição do país em que a obra é ambientada consiste em uma estratégia para que qualquer outro país latino possa servir de cenário. O plano histórico é, afinal, muito similar entre eles: tensões políticas e lutas por condições mais dignas de trabalho e distribuição de renda que se deturpam em ameaça socialista culminando em golpe militar: esta não é apenas a história do Chile, é também da Argentina, do Uruguai,… e do Brasil.

Recomendação de leitura: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende

Sendo assim, nada mais latino do que o realismo mágico, vertente essa que parte de fatos absurdos ou fantásticos, mas pautados em crenças de um povo, exprimindo o seu ponto de vista. Na minha leitura, tive a sensação de o fantástico ser uma camada secundária na narrativa. É um elemento que perde a grandeza em vista das opressões do sistema (estas demasiadamente realistas). Quando o fantástico vem, no entanto, chega com tudo, pleno de significados.

Um exemplo disso é a clarividência de Clara. Em geral, as suas previsões não podem ser mudadas. A sua habilidade de prever o futuro não faz com que impeça o que há de mal a acontecer. Já no início da obra, quando é pedida em casamento por Esteban, ela aceita com aparente resignação, mesmo sabendo que não será feliz com o pretendente. Clara vive em uma época em que as mulheres não têm direito a opinar sobre a própria vida. Ela sabe qual é o seu destino, o mesmo de todas as mulheres de sua época e de sua classe social. Ela não tem arbítrio e apenas aceita o seu destino, fato que vai se alterando nas gerações seguintes.

Outro exemplo de como a autora articula o realismo mágico é o fato de Trueba encolher com o avançar dos anos, uma metáfora do enfraquecimento. O personagem vai, aos poucos, sendo suplantado por outros poderosos que vão lhe passando a perna, assim como de oprimidos que conseguem impor o seu espaço. A partir dessa última afirmativa culmina uma importante mudança de narrador no epílogo do romance.

“A Casa dos Espíritos” é uma obra que precisa estar presente na lista de leituras obrigatórias de qualquer amante dos bons livros. Com críticas sarcásticas, desperta a consciência da posição de nós, latinos, perante um mundo externo que quer nos explorar e um mundo interno que se deixa ser explorado por conveniência. Tudo isso é orquestrado sob o paradigma da ancestralidade feminina que necessita de três gerações em paralelo a uma só patriarcal para chegar a um ponto de superação.

Afinal, o que conta Isabel Allende nessa obra? A minha resposta é essa: nós, mulheres, estamos tecendo o nosso caminho e vamos passando uma para a outra, de geração em geração (mas também entre nós, claro), a esperança de que podemos ser livres, fortes e independentes.

Recomendação de leitura: A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende é texto de Michele Fernandes para a coluna Conta Comigo!


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