Trans Horizontal #5

Trans Horizontal #5

GERÔ

um conto de Gabriel Lelis

Estava eu a andar pela cidade, quando de repente me deparo com aquela figura errante, andando pela rua mal vestido, como quem usa roupas já muito usadas de outras pessoas de tamanhos diferentes. Era a primeira vez que eu o via, mas ele já era figura pública da cidade há muito tempo. Calças apertadas demais e blusa cinza de moletom larga demais, com as mangas sobrando, me dando a impressão de criança, de 10 anos na época, que ali vinha um doido varrido, falando sozinho e gesticulando freneticamente. Era o famigerado Gerô. Tinha no olhar a bondade do interior, também a gentileza e humildade franciscana, responsáveis pela sua tutela durante trinta e cinco anos. Ele chegou até os freis aos 5 anos de idade, junto do irmão mais velho, Carlos, de 7 anos. A mãe havia morrido, e o pai já não se via ou ouvia falar há algum tempo. Ninguém por ali queria ou podia cuidar de mais duas crianças, ainda mais sendo uma criança como Gerô. Devido a isso, alguém do bairro os deixou ali, à porta da igreja de São Francisco de Assis.

Gerô, desde sempre, vivia falando sozinho, como quem reflete coisas rápido demais, sem tempo pra ficar só no pensamento, dando a impressão de um constante frenesi poético. Muitas vezes não se entendia o que ele falava, pela rapidez com que as palavras saiam de sua boca, mas toda vez que era abordado, parava e respondia com paciência e atenção à toda pessoa que lhe dirigia a palavra. Muitas vezes se limitava em responder de forma simples e direta. Geralmente um sim ou um não, bastavam. Ele cresceu fazendo mandados para os freis e para os vizinhos do bairro. Um recado aqui, um quilo de açúcar ali, um carrinho de areia acolá, e nessa, ele cresceu andando pra todo lado, fazendo suas moedas com a clientela do centro e adjacências, gesticulando e conversando seus assuntos em voz alta.

Como toda figura de cidade pequena, sempre tinham uns moleques pra atazanar o rapaz, caçoando dele, mas logo, a gurizada aprendia que coração bondoso não é bobo, pois ele não corria atrás pra revidar. Podia passar o tempo que fosse, ele sabia que, mais dia ou menos dia, se passasse perto dele, ia tomar um “tapão” pra cabeça daquela manzorra de raquete do Gerô.

Quando tinha 30 anos, seu irmão mais velho “foi embora estudar sei lá o que”, dizia ele. Foi nessa época que eu tomei conhecimento do Gerô, pois aos 10 anos de idade eu frequentei o Conservatório de música, e ali via ele passar constantemente. Por isso, não cheguei a conhecer o irmão dele, mas sabia, como se sabe coisas até sem querer em cidades pequenas, que Carlos havia ganhado uma bolsa para estudar direito em Juiz de Fora. Gerô, no fundo ficou muito feliz pelo irmão, mas tudo o que fez foi resmungar por ter que ficar sozinho ali, apesar de seu irmão ter lhe dito que ele não estava só, pois ali na cidade muita gente gostava dele, ele sempre viria visitá-lo e também prometeu voltar para buscá-lo e levá-lo pra morar com ele.

Esse era Gerô, que anos mais tarde descobri que se chama Davi Gerônimo de Jesus. Fui descobrir isso, aos 20 anos de idade, na época, frequentando o campus Santo Antônio, por onde ele cresceu, e onde eu o via diariamente. Certa vez, vem a notícia que Gerô tava nas redes sociais com esse nome inteiro lá. Viralizou, claro. A cidade toda o seguia, faziam memes com ele e tudo o mais.

Passou um tempo, eu já não o via pelo campus e nem pelas ruas da cidade, ele que já passava dos 40 anos e não tinha mudado em nada seus hábitos diários, de repente não foi visto mais. Tem que um dia, postou nas redes uma foto com seu irmão mais velho em Juiz de Fora. Carlos se graduou, continuou estudando e passou em um concurso para um ótimo cargo. Dado a sua melhora significativa no padrão de vida, ele pôde realizar sua vontade de trazer o irmão para morar com ele num belo apartamento na Avenida Rio Branco, junto com seu companheiro, e também advogado, Rômulo. Gerô gostava dele. Dizia que Rômulo rima com Gerônimo, e dava risadas. Ficou muito feliz em ir morar em uma cidade maior, com muita gente diferente pra ver. Ele já estava cansado de ver aquelas mesmas caras, “cada dia mais velhas e fundas”, dizia sempre. Queria respirar um ar diferente e claro, ficar perto de seu irmão.

No começo, tudo era novidade pra Gerô. Os passeios nos finais de semana pra conhecer a cidade, o banho de loja que seu irmão lhe deu e tudo o mais. Em São João, os franciscanos não o deixavam crescer a barba, pois diziam que ele ficaria com cara de “doido varrido”, e ele ficava indignado, pois os próprios freis eram, em sua maioria, barbudos. Portando, lá em Juiz de Fora ele deixou a barba crescer e seu irmão o levava à barbearia quinzenalmente.

Carlos não deixava ele sair sozinho, pois tinha medo que se perdesse. Com o tempo, ele foi ficando inquieto demais. Precisava andar, gesticular e trabalhar. Não aguentava ficar dentro do apartamento o tempo inteiro. Chegou a reclamar com o irmão que “já era um homem de 40 anos e não precisava de babá”. Carlos então resolveu deixar o irmão transitar pela avenida, orientando-o a manter-se sempre na calçada, atravessar somente na faixa de pedestres e não sair daquela trajetória em linha reta, isso tudo sobre severos avisos e ameaças de mandá-lo de volta para São João Del Rei. Ele jamais faria isso, por saber que Gerô ficaria arrasado, não por ter que voltar para São João, pois amava sua cidade natal, mas por não querer ficar longe do irmão. Imagina, perder todas aquelas novidades de cidade nova? Gerô gostou muito da mudança de vida para junto do irmão e seu marido. Se sentia feliz com tudo aquilo. Por isso mesmo, Carlos sabia que, quando necessário, esse era seu principal argumento para vencer o irmão nas tomadas de decisões familiares.

Carlos resolveu, por questões de segurança, imprimir um milheiro de cartões para o irmão, com nome completo e contato de telefone do prédio onde moravam, para que sempre que saísse para caminhar, pudesse ser identificado e para que Gerô pudesse divulgar seu ofício de fazedor de mandados pela avenida afora. Também deu a ele vários ternos e roupas sociais, pra que pudesse andar elegante pela cidade. Não satisfeito, deu-lhe ainda um celular com fone sem fio, para que ele pudesse se comunicar com o irmão a qualquer momento, e por fim, um par de óculos escuros para deixar o irmão bem “estiloso”.

E lá ia Gerô pela Avenida Rio Branco, terno, gravata, sapato social, óculos escuros e fone de ouvido na orelha esquerda. Na mão, uma pasta de couro larga, onde carregava água, umas frutas e seus cartões. Quem via o Davi Gerônimo daquele jeito, não imaginava que era o Gerô do bairro Bonfim, fazedor de mandados dos freis. Agora ele mais parecia um empresário bem sucedido. Batia perna o dia inteiro pelos mais de seis quilômetros de avenida. Seu irmão sempre lhe dava um dinheiro pra almoçar em algum restaurante. Seguindo sempre com seu jeito austero e de respostas objetivas, conversava com todo tipo de gente em seu trajeto. Fiquei sabendo que, até agora, Davi Gerônimo já recebeu duas ofertas de emprego e uma de sociedade, além de várias cantadas e propostas indecentes.

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