Cavando Ideias • Memórias do meu pai

Cavando Ideias • Memórias do meu pai

O ano de 2020 foi bem difícil com tanto isolamento e tantas mortes. Neste ano, surgiu a esperança da vacina. Esta esperança foi a que contaminou meu pai. Ele foi vacinado com coronavac em março. Sempre acreditou no estudo e na ciência; então telefonou para mim e para meus irmãos contando que tinha sido vacinado. Comemoramos acreditando que meu pai não teria covid-19. Ele mesmo estava tenso e preocupado porque tomou as duas doses antes de a minha mãe tomar a primeira de astrazeneca. Então, ele pegou uma gripe muito forte, ficou quase duas semanas com febre e diarreia, enquanto minha mãe cuidava dele. Quando foi no final de abril, ela o levou a um posto de saúde, que o internou e começou o tratamento contra a covid.

A partir daí, ele durou uns quinze dias. Na primeira semana, ficamos otimistas porque ele tinha sido intubado, mas deixou o tubo, uma vez que já estava respirando. Só que voltou a piorar e o coração não aguentou. Foi um choque muito grande para mim e meus irmãos. Para minha mãe, nem se fale. Eles viveram mais de sessenta anos juntos, então ela ficou totalmente perdida. Foi morar com meu irmão e agora ora fica uns dias na casa da minha irmã. ora vem para casa, ora fica com meu irmão. Nas palavras da minha mãe, meu pai era sua casa. Sim, entendo perfeitamente.

Até hoje esta perda dói. Então, eu imagino como sofrem os familiares dos milhões de brasileiros mortos. Realmente foi e é muita dor. A lembrança do meu pai ainda fica, por isso vou colocar aqui um pequeno conto que escrevi baseado na história dele e de como ele sempre foi uma pessoa forte, apesar das dificuldades pelas quais passou. Então, publico um outro conto do meu O Livro da Hipnose: ou estados de consciência. Espero que vocês que o lêem, possam aproveitar.

Cavando Ideias • Memórias do meu pai

Força

“Vemos conhecimentos, que em antigas épocas ocupavam o espírito maduro dos homens, serem rebaixados a exercícios – ou mesmo a jogos de meninos…”

(Hegel)

Silvia Ferreira Lima, em O Livro da Hipnose

Minha mãe me bateu e ela chorou. Criança sempre apronta. Tem uma criatividade infinita para experimentar e testar limites. Sempre fui um moleque tranquilo. Sabia que tínhamos uma vida difícil.

Meu pai, quando conheceu minha mãe, era policial rodoviário. Eles se casaram porque ele usava uniforme, depois minha mãe insistiu que não queria ficar casada com um homem que usasse uniforme. Então meu pai tinha que mudar. Por um tempo, ele resistiu. Mas ela sempre foi teimosa, insistente. O que tinha de pequena: um metro e meio; tinha de orgulhosa. Enquanto não fez meu pai deixar a profissão, não sossegou. Só que ele nunca mais arrumou outro emprego.

Sem dinheiro, meu pai começou a jogar. Às vezes a sorte lhe sorria. Então, vivíamos um período de fartura. Mas às vezes, faltava o que comer. Aliás, era muito comum passarmos fome. Minha mãe, cuja essência era o orgulho, fazia eu e meus cinco irmãos cantarmos parabéns no nosso aniversário e gritarmos como se tivéssemos uma maravilhosa festa, mas não tínhamos nem o que comer. Era divertido. Parecia brincadeira.

Os vizinhos, pelo menos, tão miseráveis quanto a gente, pensavam que tínhamos comemorado de verdade. Chegávamos mesmo a acreditar, bastava usar a imaginação.

Depois de adulto, estas atitudes ficaram como lição de vida: não importa o que haja, não devemos esmorecer, ainda que precisemos entrar no mundo da fantasia. A imaginação é a melhor amiga de uma criança, principalmente, se ela é pobre. Nossos vizinhos muitas vezes eram ladrões pé-de-chinelo. Mas eram crianças e eu não tinha nenhum problema com isso.

Uma vez, no meio da brincadeira, paramos num bar e fui pedir um copo de água. O português, dono da venda, julgou que eu iria roubá-lo, ou talvez que quisesse paquerar sua filha, que era bonitinha… Então, pegou uma espingarda e atirou na minha perna. Precisei ir ao Pronto Socorro para tirar a bala. Meu pai, quando soube, ficou horrorizado e foi tirar satisfações com o portuga. Na hora, eu não entendi porque levei o tiro. Hoje, eu até entendo.

Aprendi desde cedo a lidar com a dor. A dor da fome. A dor da frustração. Então, quando adolescente, num momento em que decidi teimar com minha mãe e sair sem a autorização dela, ela pegou o chinelo e me deu uma surra. Bateu. Bateu. Até cansar. Eu fiquei obstinado. Afinal, ela nos ensinou a resistir. Não derrubei uma lágrima. Saí orgulhoso, pisando duro, indiferente às suas palavras ou aos seus sentimentos.

Então, ela chorou. Desabou em lágrimas. Sua falta de paciência e punição doeram mais nela do que em mim. Literalmente. Bem, depois disso, nunca mais apanhei. Fiquei também triste por fazê-la chorar. Veio o sentimento de culpa. E passei a obedecer.

……

Neste conto, meu pai foi o protagonista e escrevi conforme ouvi sua história. Foi um resistente, apesar de tudo.

Ainda te amo, pai!!! 😥

Confira a Silvia Ferreira Lima falando sobre o Livro da Hipnose: ou estados da consciência:

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