Conta Comigo • Em Frente aos Seus Olhos

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Um conto de Michele Fernandes

 

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Michele Fernandes

Ela chegou como uma pequena presa, frágil e assustada. Precisou respirar fundo para atravessar o portão verde com um letreiro cujo nome ela não se encorajou a ler. Entrou seguindo rente à parede, procurando por um canto, tentando não ser vista. Esquiva, quase voltou quando foi abordada pela recepcionista. Mas lembrou do bebê tateando o seu peito a esmo. O leite não descia já tinha quatro dias. Sentia que a filha já andava cansada de chorar. Fez o cadastro e logo ganhou uma sacolinha. Teve medo de conferir o conteúdo. A moça mostrou onde ficava o banheiro. Ela seguiu sem contato visual.

– Ei, Bruna!

Bruna? Já não lembrava há quanto tempo o seu nome não era pronunciado. Junto ao sumiço do nome, ela se transformou num objeto. Talvez um saco de lixo. Fazia parte do cenário urbano e, por muita feiura ou por não agregar nada à vida da grande massa, era invisível.

– Você pode me passar a Julinha para poder tomar o seu banho.

E se a moça pegasse a sua filha e saísse correndo? Nunca mais ninguém lhe tiraria uma criança, já tinham sido dois. Olhou a moça ainda sem fitar os olhos, mas viu um sorriso sincero pintado de batom rosa. Lembrou que já não estava sozinha na rua e tudo aquilo era para atender ao seu pedido de ajuda jamais bradado. O bebê agora chorava, estava com fome e com um ferimento na orelhinha, roída por ratos. Tão pequena e gritava pelas duas.

– Vou providenciar uma mamadeira para ela – falou a moça.

Então é esse o valor da confiança, entregar o seu único tesouro porque sabe: essa é uma rara chance de sobrevivência nessa selva urbana.

Ela entrou no banheiro e teve dificuldade de abrir o chuveiro porque as comportas dos olhos se abriram antes, e o primeiro banho foi de lágrimas. Não sabia se era medo ou gratidão. Talvez vontade de sair correndo. Tudo aquilo poderia ser uma armadilha, como tantas por que passou. Tanta gente prometia e não dava. Culpa dela que não sabia enxergar o amor dos outros. Culpa dela que não perdoava. Culpa dela que deixou Julinha quase morrer de fome. E se voltar para a casa fosse a melhor solução? Mas já tentou fazer isso antes e acabou sendo recebida por olhos de julgamento.

Finalmente, a água desceu do chuveiro. Era quente e reconfortante. Lavou as lágrimas e os pensamentos que andavam em círculos na sua cabeça. Viu um por um deles indo embora no redemoinho formado ao redor do ralo. Passou xampu na cabeça. A fragrância era floral, e ela lembrou que nunca mais tinha visto uma flor. Só pedras. Inclusive, ela já estava se transformando em uma. Depois passou o sabonete. A pele começou a aparecer de novo. De repente, ela inteira ressurgiu. Ela ainda era alguém. Desligou o chuveiro e, com uma toalha, tentou absorver gota a gota dos seus últimos pingos de medo.

Depois de tirar de dentro da sacola uma roupa limpa, vestiu-se e suspeitou que ainda era gente. Mas isso não foi suficiente para ter coragem de se olhar no grande espelho com moldura dourada pendurado na parede. Passou o pente nos cabelos, foi um processo demorado. Os seus olhos brigaram muito com o próprio reflexo, resistindo a um encontro com ela mesma. Fugiu do banheiro levando consigo ainda alguns embaraços.

– Oi, você deve ser a Bruna, né? – ouviu ao esbarrar em uma mulher. Ela apenas balançou a cabeça para cima e para baixo. – Eu sou a Aline! Também moro aqui. O café da manhã já está sendo servido no refeitório. Hoje é especial. Sempre fazemos uma pequena confraternização quando chega uma nova moradora. Vem comigo!

Ela seguiu a colega. Olhou para todos os lados no corredor. As paredes eram cor-de-rosa. Ao fundo, havia uma porta. Ao atravessá-la, primeiro viu uma grande mesa. Ali havia sanduíches, café, leite e um grande bolo de chocolate. Foi tudo o que a sua vista rastreou. Seguiu firme na direção da comida. A mão esticada, meio trêmula, na tentativa de pegar rapidamente uma fatia. Seria apenas furtar e correr, como sempre fazia.

Então sentiu: eram muitos olhos na sua direção. Mais quinze mulheres, algumas com crianças de colo como ela. A pequena Júlia, já adormecida em um carrinho de bebê, com a barriguinha cheia, estava bonita de roupinha nova, um curativo na orelhinha e um laço na cabeça. Ela temeu que a filha não precisasse mais dela. Lembrou dos outros pequenos levados embora. Previu ser novamente julgada.

Bruna tentou correr para um canto, mas, mesmo assim, foi capturada por todos aqueles olhos. Olhos de luta, olhos de força, olhos de abraço. Não foi possível fugir. Viu-se obrigada a sorrir e a erguer o olhar. “Siga em frente, Bruna!”, pensou, “Enfrente!”. Enfim, ela se encontrou.


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