Vida de um aluno

Vida de um aluno

Vida de um aluno é artigo de Silvia Ferreira Lima em sua coluna semanal, a Cavando Ideias.

Reflexão

Vida de um aluno.Trata-se de um coração impresso em serigrafia, demonstrando como antes de tudo a escola é um lugar e empatia por todos as pessoas que frequentam o espaço e onde se aprende empatia com os outros
Coração I Serigrafia em vermelho impresso sobre papel reciclado de 220g realizado em 2016 Campinas SP _ S F Lima

Esta reflexão sobre O que é escola? O que é a vida de um aluno? Surgiu não apenas como produto de minha experiência de trinta e oito anos na sala de aula. Da segunda fase do Fundamental, ou Fundamental II até a Universidade, onde trabalhei por dezessete anos. Vejam que já passei por todos os graus de escolaridade. Lembro que quando trabalhei no Ensino Superior, eu estava muito frustrada porque tinha estudado muito, muito mais do que ensinava, ainda assim, muitas vezes, encontrava “crianças grandes” e mimadas que se julgavam no direito de desvalorizar o que quer que o professor ensinasse.

Sim, sempre preparei aulas, aliás, já passei  e passo várias horas diárias preparando. A questão não é esta. A questão é o que os alunos faziam com o que lhes era ensinado? Nunca lhes ensinei nada técnico, porque sempre vivi na escola. Então, eu lhes ensinava a sonhar com um mundo melhor, como meu pai, um grande sonhador, sempre disse: “Se o mundo for destruído e só sobrarem os homens e os livros. Um mundo muito melhor será construído em seguida.” Bom, eu sempre acreditei nisso. O amor aos livros traz não apenas maior possibilidade de questionamento e maior variedade de ideias, como um grande respeito pelas gerações anteriores e o que construíram para seus descendentes.

Ponto de Vista dos Alunos

Por isso, fico tão triste quando ouço o questionamento de um aluno do nono ano, ou seja, o último ano do Fundamental II. Para que vir à escola? Isso dói e me impele a tentar ajudá-lo, porque apesar dele ter certa razão, e de seu questionamento ser legítimo, o que é realmente importante na escola?

Trata-se de uma xilogravura do coração de minha autoria para demonstrar que a escola é lugar de amor
Xilogravura na cor magenta sobre papel alta alvura 220g. Realizada em 2015 Campinas SP SFlima

É necessário retomarmos a história deste aluno, descoberta através da narrativa dos colegas que trabalham na unidade escolar em que me encontro neste ano. Infelizmente, a vida do garoto, é semelhante à vida de milhões de outros. E passa pelas narrativas de abandono parental, dificuldade das mulheres em assumirem a educação dos filhos e sua alimentação, pobreza, fome e até racismo.

Imaginem um garoto negro e bonito, cuja mãe foi abandonada pelo companheiro e conseguiu o trabalho de empregada doméstica. Mas esta mãe já tinha três filhos, sendo o rapaz o mais velho. Ele devia ter por volta de sete anos, quando teve que cuidar dos dois irmãos menores, dar comida, arrumar a casa, enquanto a mãe saía para trabalhar. Muitos aí vão pensar: por que ela não pediu ajuda para um vizinho ou alguém da família? Bom, nem todos têm vizinhos ou parentes nos quais possam confiar para deixar os filhos. Sinto a dor desta mãe, levando uma vida difícil para cuidar e alimentar a ela e a três crianças, sem qualquer tipo de ajuda.

Bem, o garoto assumiu as responsabilidades maternas dentro de casa, ainda muito novo. Teve que faltar à escola com frequência para cuidar dos irmãos. Não teve uma figura masculina que o guiasse e orientasse, teve apenas a mãe. A qual, certamente, exausta de tanto trabalho e tantas obrigações, não o pegou no colo mais, apenas exigiu e demandou mais responsabilidade que o garoto era capaz de demonstrar na idade.

Sei de um momento, no Fundamental I, que foi aniversário do garoto, que ele contou o fato para uma professora e respondeu a pergunta: “Cadê o bolo?” ao que o menino respondeu: “Não temos dinheiro para isso.” Então, ela trouxe um bolo para a escola e todos cantaram parabéns para ele. Este foi um momento de atenção e carinho, que ele recebeu na escola. Embora sequer lembre disso. Talvez porque a pobre mãe tenha lhe dito para nunca mais contar com isso. Afinal, eles jamais poderiam ter algo do tipo novamente. É possível que estas palavras da mãe negra, ensinando o filho a ser forte e resistente tenha acabado lhe trazendo um distanciamento das pessoas e do ambiente escolar.

Hoje, o rapaz tem quatorze anos. Ficou dois anos afastado da escola com a pandemia. Certamente vivendo situações muito mais difíceis. Provavelmente, trabalhando para ter comida em casa e para ajudar a mãe. Então, quando ele tem que voltar à escola, já que a lei obriga ao menor de 18 anos a estudar; inclusive, penalizando a família caso isso não ocorra. Que é escola?

Sinceramente, não sei como responder. Afinal, não vivo na mesma situação que o rapaz. Estou apenas no papel de professora tentando ensinar os alunos. Mas que tipo de conteúdo da LDB pode realmente auxiliar este tipo de aluno, com tal problema?

Escola e Pandemia

Neste anos de pandemia, participei de um grupo de ajuda para alunos de EJA, que fazia vaquinha para ajudar os alunos adultos, por exemplo, a comprar comida, a colocar uma porta na entrada de casa, porque a polícia ignorante e mal formada, tinha derrubado a porta da casa, quando uma criança de treze anos, orientada pela mãe, recusou-se a abrir a porta. Afinal, a menina estava lá dentro sozinha com mais uma irmã menor. E o corpo policial reconheceu o erro colocando outra porta no lugar da que tinham derrubado? Não, eles não fizeram isso.

Cito apenas um dos casos que nós, professores de escolas públicas, encontramos ao tentar ensinar nossos alunos. O que são os conteúdos da LDB, comparados com as necessidades urgentes dos nossos alunos? Respondo o que tem me marcado: não são nada! Nada!

Quanto ao meu aluno do nono ano, encontro-me no papel de lhe dizer que ele é inteligente e capaz de estudar e arrumar um emprego melhor um dia. Afinal, há várias posições de trabalho que exigem no mínimo que o aluno tenha Ensino Médio. E esta é a nossa luta: ensinar nossos alunos para que sigam ao Ensino Médio, a fim de melhorarem suas condições de vida.

Não é justo que as pessoas não tenham o que comer, onde morar e o que vestir. Todos possuem direito à educação. E está na Constituição de 1988. Aliás, maravilhosa Carta Magna, que prega a justiça para todos e as mesmas oportunidades para todos. Mas o Poder Executivo realmente executa o que foi definido pelo Poder Legislativo? Não!

Você que tem roupa, comida, casa, estudo, não tem noção de como é privilegiado. Não é melhor do que ninguém, sinto por lhe escrever esta verdade, apenas tem mais oportunidades. E o que está fazendo com isso?

Outros Pontos de Vista

Dei aulas para muito alunos de classe média que julgavam que os professores eram inferiores, e nos tratavam como serviçais. Lembro inclusive da corretora imobiliária, mãe de um aluno, que por eu chamar a atenção do filho dela, criou pressão para a dona da escola me demitir. Sinceramente, foi o melhor que me aconteceu. Agora, posso ficar na linha de frente em luta por mais oportunidades e justiça pelos que passam fome. Quanto à corretora imobiliária, não tem noção dos anos a mais em que passei na escola. Portanto, tenho muito mais escolhas do que ela. Esta é a diferença do estudo!

Não tenho nenhum preconceito por prestar serviço. Faço por vontade, por ideal e por amor. Esta é minha escolha! Sei que as crianças e adolescentes desamparados de hoje, serão  os marginais do futuro se não lhes oferecermos melhores oportunidades. E não poderemos julgá-los por isso. O que teremos feito para lhes oferecer oportunidades melhores? É com isso que eu me preocupo.

Conclusão Provável

Uma coisa tenho aprendido no difícil dia-a-dia da escola pública: as crianças e adolescentes precisam de atenção, respeito e carinho, mais do que aprender as regras gramaticais, mesmo que estas possam lhes ajudar a conseguir ler melhor e conseguir melhores trabalhos. E sigo na minha luta diária pelo ensino destes adolescentes. Com imensa dificuldade, mas fazendo o que sei fazer melhor: ouvir as crianças, dar atenção a elas e ensinar o respeito e o amor pelas outras pessoas. Estas questões são fundamentais!

E você, o que tem feito? Já parou para pensar o que é a vida de um aluno?

O assunto não acaba aqui.

Referências do artigo anterior:

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo, Editora Paz e Terra, 63ª ed.,2020.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Editora Paz e Terra. São Paulo, 63ª ed., 2020

FREIRE, Paulo e BETO, Frei. Essa Escola Chamada Vida. Depoimentos ao Repórter Ricardo Kotscho. Editora Ática. 1985.

JARA H, Oscar. A Educação Popular Latino-Americana: história e fundamentos éticos, políticos e pedagógicos. Ação Educativa CEAAL , ENFOC, 2020.

https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/a-historia-da-educacao-no-brasil-uma-longa-jornada-rumo-a-universalizacao-84npcihyra8yzs2j8nnqn8d91/

Observações: para evitar constranger alunos e colegas, os detalhes foram omitidos, apesar de serem reais.

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