Maria Valéria Rezende: Freira, Escritora, Mulher

Maria Valéria Rezende: Freira, Escritora, Mulher

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Michele Fernandes

Na semana passada, nesta coluna, falei sobre o livro “Quarenta Dias”, de Maria Valéria Rezende, e já adiantei um pouco sobre o encontro que participei com a autora. O evento fazia parte das atividades do Coletivo Escreviventes, Lendo como uma escritora.

Maria Valeria rezende
Maria Valeria Rezende

Maria Valéria Rezende, 80 anos, é autora de romances, crônicas, haicais, contos e obras voltadas ao público infantojuvenil. Sua narrativa se destaca por apresentar protagonistas nordestinas em idade madura, críticas sociais, um olhar peculiar e apurado sobre questões nem sempre percebidas por olhos menos atentos. Ela discorre sobre a linguagem, sobre o conflito de gerações e até mesmo sobre o voar dos pássaros. Todos esses temas são caros à autora e há razões para isso. Na conversa, ficou claro que a escrita vem de dentro, vem de si, vem dos seus incômodos e desejos.

A autora nasceu em Santos, mas, como os pássaros, migrou. Já morou em Pernambuco e hoje reside na Paraíba. Mas também quis conhecer o mundo. Segundo o que nos contou, em seu tempo eram dadas às mulheres duas opções quanto à definição de seus destinos: casar-se ou tornar-se freira. Sobre a vida de casada, ela podia observar as mulheres ao seu redor e parecia não ser algo tão interessante. Porém, como freira, seguindo a linha missionária, ela poderia viajar por aí, conhecer muitos lugares do Brasil e do mundo. Optou, portanto, pela vida religiosa, quebrando padrões com sua mente aberta, resultado de uma vida de observações e críticas sobre as informações que o mundo lhe ofereceu.

“Vasto Mundo” foi seu primeiro livro, publicado em 2001. Esta data, porém, não equivale ao seu momento de descoberta como escritora. Maria Valéria deixou claro que sempre escreveu, e isso era algo muito natural para ela. Em sua família, todos tinham o hábito de escrever. O convívio com escritores fazia parte do cotidiano. Personalidades como Patrícia Galvão e Lígia Fagundes Teles pertenciam à roda de convivência da menina Maria Valéria, deixando a impressão de que a escrita era algo comum a qualquer pessoa. Publicar, porém, parecia algo mais apropriado ao gênero masculino. Talvez seja esse o motivo de ter aguardado tanto tempo para seu primeiro lançamento.

As observações da autora nas relações de gênero dentro do universo literário não param por aí. Ao falar sobre premiações, Maria Valéria Rezende sentiu na pele a diferença de tratamento tanto por ser mulher como por ser alguém considerada de fora dessa elite chamada “cânone”. Ironiza os veículos de comunicação com suas manchetes machistas e academicistas, as quais destacavam os autores homens perdedores do Jabuti, apagando o nome da autora nas ocasiões em que levou o prêmio. A autora já foi várias vezes premiada. “Quarenta Dias”, por exemplo, venceu o Jabuti em 2015, nas categorias Melhor Romance e Livro do Ano, foi semifinalista do Prêmio Oceanos e finalista do Prêmio Estado do Rio de Janeiro.

Maria Valéria Rezende também me surpreendeu com seu ponto de vista acerca do fazer literário. Quando indagada sobre as técnicas utilizadas na escrita de sua obra “Quarenta Dias”, responde apenas que não se preocupa com técnicas, não sabe falar sobre isso e destrói a nossa ilusão sobre a necessidade de se fazer mil cursos, dominar um vocabulário específico e ter uma enciclopédia de técnicas narrativas para se escrever um bom livro, a despeito de seu longo currículo. Com a simplicidade das pessoas verdadeiramente sábias, a autora, como dica para escrever bem, nos instrui a ler muito. É o básico, não é? Esperar o momento certo e, sobretudo no caso das escritoras mulheres, a união são mais duas dicas valiosas a serem aprendidas com essa verdadeira mestra da literatura, que também se destaca por ser uma das idealizadoras do coletivo feminista literário Mulherio das Letras.

Saí do encontro com a autora trazendo comigo um grande sentimento de gratidão e a certeza de realmente ter aprendido muito. Como tudo o que é de fato valioso, a conversa com a autora me fez sentir a necessidade de compartilhar tais aprendizados, trazendo aqui este artigo e fazendo essas ideias voarem o mais longe que conseguirem.

Maria Valéria Rezende: Freira, Escritora, Mulher é artigo de Michele Machado Fernandes em sua coluna semanal, a Conta Comigo!

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