O passado cria o presente e muda o futuro

O passado cria o presente e muda o futuro

 

O passado cria o presente e muda o futuro – Silvia Ferreira Lima escreve a coluna semanal Cavando Ideias e as obras deste post podem ser encontradas no site da autora aqui.

 

xilogravura em magenta e sépia impressa sobre papel alta alvura 220g que representa a aprendizagem das linguagens representada pelas formas nas laterais do cérebro
Cogitação. Xilogravura impressa em magenta e sépia sobre papel alta alvura de 220g, 66x82cm, 2018, Campinas SP.

 

Quando começo a falar do passado é para explicar o que vivemos no presente. Desse modo, para falar da pandemia e de como trabalhamos neste momento, falo das decisões passadas.

Escolha

No final de 2019, escolhi assumir aulas numa grande escola da rede, cujo trabalho já repercutia devido à sua qualidade. Assim, peguei uma turma de oitavo ano e comecei a trabalhar. No início de 2020, fui conhecer a escola e me apresentar à direção, composta por três profissionais excelentes. Lembro que uma das diretoras me disse que para trabalhar lá eu precisaria estar preparada, porque a equipe era muito dedicada. E eu respondi que era o que eu queria, dedicar-me ao máximo. E foi assim que comecei. Eu ia até lá, uns quinze quilômetros de distância da minha casa, apenas para dar aulas dois dias por semana. E foi o que fiz com a maior alegria.

 

Aulas de leitura

Uma das primeiras coisas que fiz, foi instituir uma aula em que passávamos na biblioteca, escolhendo livros para ler e dedicando algum tempo para isso. Eu já tinha avisado que a leitura seria avaliada. Na ocasião, várias alunas, bem dedicadas, pediram para ler pdfs de livros de que gostavam. Bom, minha filha sempre adorou ler romances de banca que conseguia em pdf. Assim, concordei com elas; afinal o importante era ler, mesmo que fosse utilizando o celular para isso. Claro que nunca é possível ter cem por cento de certeza de que um aluno está lendo. O que eu fazia era passar em cada grupo de aluno e verificar se estavam lendo em silêncio, ou se estavam apenas conversando. Eu fazia isso direto.

Produção de textos

Nas outras aulas, ficávamos na sala e eu trabalhava com eles a produção de textos jornalísticos, principalmente, as notícias. Desse modo, tivemos o primeiro acesso ao que ocorria na China, com a covid-19, que atingia principalmente as pessoas com comorbidades, como: pressão alta, bronquite, diabetes, entre outros. Eu vi que estava incluída neste grupo, mas como eu estava no Brasil, não tinha noção de que a doença chegaria até nós e com características ainda piores. Por isso, infelizmente, eu pertencia ao grupo das pessoas com comorbidades: diabética insulino-dependente há trinta e cinco anos. Certamente, eu não gostava de estar neste grupo, mas estava. Isso foi criando um certo pânico a ponto de eu me afastar totalmente do convívio social.

 

Contatos por aplicativo de mensagem instantânea

Mas as aulas continuaram normais por mais de dois meses. De forma que consegui produzir várias coisas com o grupo de alunos e conhecê-los melhor. Logo, quando a prefeitura também adotou a medida nacional de afastamento social, deixamos de ter aulas. Nossa OP (Orientadora Pedagógica da escola) passou para meu Whatsapp o contato de todos os alunos e familiares desta mesma turma. Então, fui conversando com eles. Acho que durante uns dois meses, enquanto as aulas virtuais não tinham se tornado uma realidade. Enquanto isso, aguardávamos decisões da Secretaria de Educação do Município.

Como este oitavo ano era composto por alunos bem dedicados e que gostavam da escola e de aprender, todos ficaram bem tensos com este isolamento. Mal sabiam que eu estava ainda mais tensa, porque afinal minha vida também dependia deste distanciamento. A vacinação demorou a chegar ao Brasil, e era aplicada pelos grupos etários, dos mais velhos aos mais novos. Então, esperei a minha vez, porque eu já tinha metade de um século, porém a vacinação ainda não tinha chegado a minha idade.

Enquanto os alunos do oitavo ano e eu estávamos isolados, eu tentei lhes sugerir que pesquisassem o que lhes interessava pela internet, mesmo que fossem em aulas pelo Youtube, ou em qualquer outro aplicativo no qual pudessem pesquisar os assuntos necessários. Muitos cursos e aulas virtuais começaram a surgir nesta ocasião. Lembro que mesmo não sendo indicada para fazer isso, eu respondia às questões dos alunos, ainda que fossem sobre conteúdos das aulas. Eu realmente não queria vê-los perdidos e desestimulados. E chegamos a ficar felizes, porque se ninguém poderia ter aulas, era mais vantajoso ser aluno de escolas públicas. Esta foi a primeira reação popular. Então, chegamos a acreditar numa igualitária formação educacional.

 

Funcionários Públicos

Claro que, como funcionários públicos, temos sempre que seguir as leis fielmente, tanto a nosso favor, quanto a nosso prejuízo. Por isso, demoramos a começar a fornecer conteúdos virtuais. Chegamos a ouvir muitas críticas até violentas, de pais e alunos que diziam que esperavam mais do grupo de professores da escola. Mas uma coisa que a população nunca entende é que temos que seguir as regras que vêm de cima, mesmo que não concordemos com elas. Por isso, qualquer coisa que façamos é apenas uma decisão paliativa, ou pequenas ações individuais.

Ficamos nesta tensão assistindo os alunos e familiares, procurando auxiliar tanto em falta de comida, quanto em falta de equipamentos para o ensino virtual. Uma vez que, se não tinham comida em casa, como poderiam comprar um celular de valor maior do que o salário que os pais recebiam? Sempre ficávamos em aflição diante destes problemas. Muito do que fizemos foram doações ou recolhimento de donativos, enquanto a prefeitura não entregava o número de cestas alimentícias em número suficiente, ou enquanto não distribuíam os chromebooks para os alunos e professores que não tinham.

 

Início das Atividades

Eu estava numa posição confortável a este respeito, porque já tinha um excelente computador, tinha vários modems em casa e internet de qualidade (claro que a qualidade foi piorando à medida em que mais pessoas foram usando a internet e não havia uma conexão de qualidade o suficiente para servir a todos os que passaram a utilizar). Mas eu já sabia utilizar os aplicativos e não tive dificuldades em usar o Google Classroom e fazer as postagens de informações pedagógicas. Mesmo assim, sempre havia algum detalhe a prestar atenção e algum novo processo a aprender para melhorar a qualidade dos conteúdos.

Quando começamos a preparar as aulas, nós nos reuníamos em três grupos: o grupo geral da escola; o grupo do ciclo 4: oitavos e nonos anos; e o grupo das professoras de português que davam aulas para os oitavos anos. Pelo menos, esta foi a divisão de que participei. Mas algo semelhante ocorreu com os professores das outras disciplinas. Na verdade, no início, nem nos reuníamos por disciplina porque o trabalho era mais pedagógico do que conteudista; logo nos reuníamos em grupo de professores de várias disciplinas e preparávamos um material comum a todos, passando por todos os conteúdos.

Chegamos a discutir sobre detalhes na preparação dos conteúdos. Eu achava que conseguia trabalhar em grupo, mas descobri que não gostava de participar de grupos em que não discutíamos o suficiente antes de postar as atividades. Talvez eu tenha justamente discutido porque encontrei colegas que eram tão empolgados quanto eu, o que podia assustar outros colegas ou fazer outros não terem chance de participar da mesma forma. Bom, descobri minhas fraquezas observando a mesma dificuldade em outros. Demorei um pouco, mas tomei consciência. Consequentemente, acabei admitindo que eu tinha a mesma característica pessoal que me incomodava. Lembro que um colega chegou a me elogiar por isso. Afinal, é difícil reconhecermos nossos erros, mais ainda quando os vemos nos outros.

Posso dizer que cresci enquanto ser humano. E adorei trabalhar neste grupo. Então, achávamos que estávamos fazendo um trabalho interdisciplinar, relacionando todos os conteúdos escolares em assuntos da atualidade. Porém, nosso trabalho não foi compreendido pelos alunos e pais. Logo, vários deixaram de fazer as atividades; mesmo que nossa OP (Orientadora Pedagógica) ligasse para a casa deles e lhes dissesse que eram obrigados a fazer as atividades para terem presença nas aulas virtuais. Bem, nestes primeiros meses de conteúdo virtual, apesar dos esforços e questionamentos profissionais realizados pelo corpo docente, não conseguimos a participação de alunos esperada.

 

Codificação é uma xilogravura em sépia impresso sobre papel alta alvura 220g, que representa os diversos sinais que constituem as linguagens que formam nossa cultura humana
Codificação. Xilogravura em sépia sobre papel alta alvura 220g,62x88cm, 2018, Campinas SP, 

 

Aulas conteudistas

Meses depois, começamos a preparar as aulas por conteúdos. Vou observar que tudo o que fizemos foi orientado pelo Departamento Pedagógico da Secretaria de Educação do Município. Então, quanto começamos a passar conteúdos disciplinares; também foi devido a uma orientação da secretaria. Eis o que eu disse sobre o fato de que um funcionário público só pode seguir ordens superiores, mesmo que não concorde com elas.  Assim, qualquer tratamento diferenciado é puramente pessoal, porque ninguém controla os sentimentos dos indivíduos muito menos suas ideias ou ações. Principalmente, quando queremos ajudar à população. Saibam que realmente estamos na linha de frente. Temos que seguir ordens e ouvimos a reclamação da população; ou recebemos as reclamações, irritações, desabafos, indignações da população. Nós, funcionários públicos, estamos sempre ao lado do povo; as autoridades, chefes de gabinetes e outras autarquias que estão realmente distanciadas da realidade.

 

Funcionários Públicos

Somos como o recheio de um sanduíche: recebemos pressão de cima e debaixo. E certamente não somos os que mais merecem reclamações ou atitudes violentas e indignadas. É importante que todos entendam isso! Aí, quem me conhece e sabe que já dei aulas em universidade particular por dezessete anos; já fiz mestrado num dos programas avaliados com sete pela CAPES, no momento em que estudei. Sou uma devoradora de livros; leio todos os assuntos: de filosofia a ciências. E acabei concluindo um doutorado em Artes Visuais. Também estudei Psicanálise e Arteterapia. Como eu, com tanto estudo a mais que muitas pessoas, fui parar justamente na sala de aula de uma escola fundamental? Adoro o contato com os adolescentes. Adoro as crianças. Acho que nas mãos deles está o futuro da humanidade. Então, considero minha posição muito mais importante, do que vender casas ou apartamentos, por exemplo. Citando o caso da mãe do aluno (corretora de imóveis) que me ameaçou e fez pressão para a dona da escola particular me demitir. Só penso que ela nunca terá noção do que eu já estudei. Tampouco tem o poder de escolha que eu sempre tive: SABER É PODER. O maior poder de todos: de escolha!

Claro que durante estes anos de pandemia (e terapia) pensei e penso muito nisso. O que me mobiliza, faz com que eu levante e entre na sala de aula, são as reações dos alunos. Muitos amorosos, se eu falto, eles me perguntam porque faltei. Um deles me chama de tia (já foi questionado pelos outros colegas por isso. Mas eu lhes disse que estava adotando o aluno como meu sobrinho). Acho que dá para entender onde está meu coração, e que é por isso que sigo em frente.

A prefeitura possui uma classificação profissional, porém quando prestei concurso marquei bobeira ao enviar meus diplomas. Então, demorei a ser chamada. Prestei concurso em 2014 e só fui chamada em 2018. Eu nem acreditei quando recebi um e-mail da prefeitura me chamando para me apresentar no RH e ser contratada. Fui chamada em novembro de 2018, porém em outubro de 2018 eu já tinha entrado com o pedido de aposentadoria. Não entrei com advogados para isso; logo na prática minha aposentadoria só saiu em abril de 2019. Então, não aproveitei na prefeitura a soma destes 34 anos de serviço, completados em 2018. Tive que começar novamente. Estive no CAMPREV (Centro de Previdência da Prefeitura de Campinas) e me informei que, se eu quiser me aposentar pela prefeitura, terei que cumprir no mínimo dez anos de serviço, para receber apenas metade do salário. Não sei se minha saúde física ou emocional ajudará a cumprir isso. O desgaste diário é enorme!

Confesso que já não faço questão de ter meus diplomas avaliados. Talvez apenas quando eu terminar o probatório. O que com os oito meses de Licença para Tratamento de Saúde (LTS), que eu tirei em 2021; se eu não ficar mais doente, no final de 2023, poderei entrar com meus diplomas e o pedido de avaliação para ter uma promoção e reajuste salarial. Não penso nisso, porque sobreviver ao dia-a-dia já está bem difícil! Porém, reconheço que se eu morresse hoje, eu diria que fui uma excelente professora e que nasci para isso. Mesmo porque dedico a maior parte do meu tempo fazendo o melhor.

Leio muito, pesquiso, adoro fazer gravuras e livros de artista. Só que faço por puro prazer, sem regras, sem obrigações, sem preocupações, apenas para mim mesma. O que, sinceramente,  também faço quando escrevo.

 

Responsabilidade Social

Sinto que a sociedade é responsável por amar e compreender a criança e o adolescente, ainda mais, aqueles que não são amados ou compreendidos em seus lares, uma vez que suas famílias já estão preocupadas com a sobrevivência e não possuem condições de dar mais do que já receberam. É uma bola de neve: a ignorância chama ignorância; o mal chama o mal; o desamor chama o desamor; precisamos ensinar outras opções e dar a chance das novas gerações escolherem o melhor. Assim vejo nosso papel.

Hoje minha filha é adulta; mas já cheguei a levá-la para a sala de aula enquanto eu trabalhava; e já cheguei a preparar aulas para a faixa etária dela e pedir para que ela observasse e me questionasse ou ajudasse com suas impressões. Sim, sempre dei muita responsabilidade e direito para ela. E isso sempre me ajudou a estabelecer uma troca com ela e com os alunos. Adulta, eu já estive me apresentando numa aula dela, na Universidade, para falar de Semiótica. E adorei o contato com os alunos. Depois, eu soube que seus amigos também curtiram, foi a resposta que eles me deram. Realmente, acredito na juventude. Penso que eles possuem força, fé, confiança e disposição, que os adultos muitas vezes já abandonaram. Precisamos trocar nossas energias e conhecimentos.

 

Amor e Orgulho pelo Trabalho

Amei trabalhar nesta escola grande da prefeitura, “Temos cerca de mil alunos!” Era o que os diretores sempre diziam. Mas sempre admirei a competência e disposição deles. Trabalhei com esta turma durante 2020. Construímos um material didático de qualidade e fui a pessoa que incentivou nossa OP (Orientadora Pedagógica) a apresentar o material construído juntamente com uma colega, professora de Português. Não apresentei porque estava participando por outro projeto pedagógico. Mas estava lá em coração! Adorei meu trabalho! Mesmo que não tenhamos sido entendidos pelos alunos e familiares aos quais servimos e, justamente por isso, este trabalho nasceu e morreu! Ainda assim, sinto bastante orgulho de ter trabalhado neste grupo.

Não acabou ainda…

 

Referência das imagens: http://www.silviaferreiralima.com

Se houver interesse em adquirir as imagens, entrar em contato com imagemescritaegravura@gmail.com  ou whatsapp (19)999251803 (só mensagem de texto)

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