2021 • Um ano mais difícil

2021 • Um ano mais difícil

2021 • Um ano mais difícil é artigo de Silvia Ferreira Lima em sua coluna Cavando Ideias, na Expedição CoMMúsica.

 

Idealização serigrafia em laranja e vermelho com a imagem do pulmão, uma ave, árvores, ondas, sol e céu
Idealização serigrafia em laranja e vermelho sobre papel reciclado 200g. 30x42cm, 2018 Campinas SP, Silvia F Lima

Apesar de a vacinação no Brasil ter começado no início do ano passado, começamos a revezar com a aplicação da Coronavac, com finalização  do medicamento no laboratório Butantã. Esta primeira vacina a ser aplicada somente foi aprovada pela ANVISA em 17 de janeiro de 2021. Com o ideal da aplicação de duas doses com diferença de duas a quatro semanas entre uma e outra Coronavac.

 

O Início da Vacinação

Lembro que meu pai, um senhor sempre idealista e incentivador dos estudos e da ciência, foi todo feliz tomar suas duas doses. Quando tomou a segunda, ligou feliz para cada um dos filhos e se dizia preocupado com a minha mãe, que tinha tomado apenas uma dose da Astrazeneca . É importante esclarecer que ninguém no Brasil tinha certeza de qual vacina seria melhor, se havia efeitos colaterais ou não. Simplesmente, nós nos dirigíamos aos Postos de Saúde (ou PAs), felizes com a oportunidade de começar a vencer a doença que já desgastava a todos com isolamento social, fome, falta de emprego e milhares de mortos a cada dia. Meu pai tomou a segunda dose da Coronavac em março, mas quando foi no final de abril, apareceu com gripe, febre e diarreia.

Eu ligava e conversava com ele por telefone todos os dias. Então, chegamos a conversar quando ele estava rouco. Perguntei o que estava havendo e ele não falou que estava gripado. Bom, eu não insisti com a minha mãe. Mas não deu mais três dias, na realidade, num sábado, que eu soube que minha mãe tinha levado meu pai a um Posto de Atendimento mais próximo de onde eles moravam, no caso, na Lapa, um bairro muito grande na Zona Oeste de São Paulo, que no caso, estava próximo do Jaguaré. Porém, minha mãe não sabia dizer qual posto de saúde era esse.

Então, minha irmã pediu ao marido que fosse procurar qual seria este posto de saúde. Foi difícil achar, mas ele encontrou. Aí, liguei para minha mãe, já que eu estava em Campinas, para ter uma ideia do que estava acontecendo. Só mais tarde, eu soube que meu pai tinha sido internado e seria enviado para um dos hospitais mais próximos e destinados somente para assistir os doentes de covid-19. No dia primeiro de maio, meu irmão se dirigiu de Jacareí (São José dos Campos, interior de São Paulo) para São Paulo, capital, conversar com a equipe de médicos, que já o desenganou quanto ao estado do meu pai. Foi um momento de muito choro de todos. Meu irmão tentou poupar a minha mãe, mesmo porque ela preferia não saber dos detalhes mais difíceis, e somente a informou quando meu pai realmente faleceu, em dois de maio.

Perspectivas Negativas 

Sabíamos que meu pai estava morrendo. Esta doença é terrível e o tratamento nunca foi muito humano. Mesmo assim, o serviço social do hospital colocou meu pai numa ligação em conjunto e como estava sedado, meu pai nem tinha como olhar para quem falava com ele. Nossa última conversa com meu pai consciente, foi quando ele foi hospitalizado para tratamento e, ao sair do posto para o hospital, conversou comigo e com minha filha. Nós nos limitamos a pedir para ele não fugir do tratamento. Mas eu me lembro que no meio de uma de nossas conversas por telefone, quando eu pedia para ele e a minha mãe se cuidarem; ele chegou a falar que preferiria morrer em casa, do que ser internado.

Bom, ele foi internado, porque foi o mais ético e porque acreditamos que ele melhoraria. Ele chegou a ser entubado com oxigênio no mesmo dia em que foi transferido para o hospital. Uma semana depois, tiraram o tubo dele. Então, achamos que ele melhoraria. O choque foi que, depois de desentubar, ele não durou dois dias. Acho que foi somente para fazerem ele se despedir. Mas nem consideramos uma despedida. No final, meu irmão foi identificar o corpo, no dia seguinte à conversa com a equipe médica. E o corpo foi levado ao crematório.

 

Sem despedidas

Não houve velório ou qualquer cerimônia porque ele tinha morrido de covid. E, somente um ano depois, suas cinzas foram jogadas no mar de Santos. Sinceramente, eu não via suas cinzas na água, mas voando para longe, assim como via sua alma seguindo para outro plano. Hoje, só esperamos que sua alma esteja leve e livre das coisas tristes do mundo.

Somando a uma tristeza enorme, que tirou meu chão, uma vez que meu pai sempre foi um exemplo de dedicação, de trabalho e de estudo. A última vez que me lembro de vê-lo bem, foi na minha defesa de doutorado, em 2019. Quando ele apareceu para me prestigiar e perguntou porque eu não tinha feito o doutorado há mais tempo. Pelo menos há vinte anos antes. Quando, de fato, eu começara a fazer, mas acabei não concluindo. Por vários motivos, o principal foi minha vida emocional, que me levou para outro caminho: divórcio, outro casamento, minha filha. O que realmente sempre ocupou o primeiro lugar na minha escala de valores: o amor.

 

O Sentido da Vida

No final, o segundo casamento também não foi feliz. Porém, o melhor foi minha filha, para quem eu teria feito qualquer coisa para nascer com saúde e ser feliz. E acho que tenho feito o melhor. Bom, os pais sempre acham isso. Mas só têm certeza anos depois, ou no final da vida. Somando tudo, eu me considero uma pessoa realizada. Logo, o que faço hoje é ajudar aos outros. E isso me faz feliz, porque como professora posso realmente ajudar. Claro, que o importante é acreditar e ensinar o melhor para os alunos. No final, a escolha é sempre deles. Assisti a um filme motivacional, que se relaciona com isso. Deixo aqui para o leitor ter noção de como me vejo neste papel de professora.

 

 

Eu realmente me identifico com isso. Estou no momento e no lugar certo de auxiliar os adolescentes a buscarem e construírem um mundo melhor. Eu sempre me questiono quanto a isso. Aliás, passei oito meses afastada do trabalho, depois que meu pai morreu.

 

E aí

Cheguei a pensar em pedir exoneração. Afinal, já estou aposentada, Meu salário como funcionária pública não é bom. Na realidade, em 2020 e 2021, o salário foi razoável, porque eu tinha umas 44 horas de aulas semanais. Só aguentei por ânimo, porque estava envolvida num projeto educacional interessante no NAED (Núcleo de Ação Educativa Descentralizada) Noroeste, em Campinas. Trabalhei em duas escolas (uma das quais eu já tinha trabalhado em 2020 e outra onde tive amigos maravilhosos, dos quais eu não esqueço a ajuda), do mesmo NAED, além do projeto. Tinha aulas no NAED Norte (onde conheci uma equipe excelente, numa escola em Barão Geraldo, próxima à Unicamp, com os quais eu adorei trabalhar e aprendi muito – frequentava a todas as reuniões e trabalhava em grupo). Além do NAED Sul, onde eu tinha um maior número de aulas, e em cuja escola continuo trabalhando.

Tive crises de pânico, dores no peito, ansiedade, depressão. Não conseguia dormir e achava que teria um ataque cardíaco. Um risco possível devido à “comorbidade” com a qual vivo. Busquei uma psiquiatra. Comecei a fazer terapia. Consultei uma cardiologista. Fui à gastroenterologista. E passei bastante tempo dopada, por meses. Não que, hoje em dia, eu tenha deixado de tomar remédios psiquiátricos. Mas procurei várias opções para me recuperar. Além dos recursos acima, comecei a meditar. O que cheguei a fazer três vezes ao dia, Principalmente nos momentos de mais crise. Mergulhei na arte. Fiz o maior número possível de cursos on-line. Procurei transformar a depressão, a ansiedade, a tristeza e a dificuldade de dormir, em coisas bonitas, positivas, que me fortalecessem.

continua…

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