Vinde a mim as criancinhas

Vinde a mim as criancinhas

Vinde a mim as criancinhas é  artigo de Silvia Ferreira Lima em sua coluna Cavando Ideias

 

Grafite de coração nos tijolos vazados do IA Unicamp 2016
Grafite em tijolos vazados com molde e tinta spray vermelha no espaço do IA/Unicamp, 1,50mx60cm, em 2016 Silvia F Lima

 

Palavras de Cristo

Esta frase são palavras de Cristo de acordo com os evangelhos bíblicos. Ditas por ele, uma vez que ele comentava a pureza e inocência das crianças que nasciam sem qualquer noção de maldade. Ou pelo menos sem consciência. Por isso, existe educação, para preparar o ser humano para fazer parte da sociedade em que vive. Mas todo ser humano nasce curioso e com vontade de aprender. O que acontece neste percurso da infância à juventude?

No século XIX, o filósofo Rousseau já dizia que a criança nasce pura e o que a estraga é a sociedade. Se os professores, em geral, têm idealismo desde a origem; se toda escola realmente se preocupa com o ensino aprendizagem, por que a criança perde a curiosidade e o desejo em aprender? Por trabalhar numa escola da prefeitura e por já ter passado por escolas de, pelo menos, três  diferentes NAEDs (Núcleos de Ação Educativa Descentralizadas); quando alguém critica um professor de escola pública, quando insinuam que ele não trabalha, saibam que isso é impossível. É maior a probabilidade de um professor de escola privada não ter uma boa base de conhecimento do que o professor de uma escola pública. Considerem primeiro o concurso pelo qual os professores passam e são avaliados.

Além disso, existe uma tabela de classificação do trabalho de cada professor, antes que suas aulas lhes sejam atribuídas. Cada professor precisa fazer relatórios e passa por uma avaliação anual, para, pelo menos, continuar trabalhando na prefeitura. Então, professor tem realmente muita paciência para aguentar o trabalho  que cada criança ou adolescente oferece para aprender a se comportar como um cidadão preparado.

 

Música dos Carpenters

Quando penso nos alunos e na escola, eu já penso na antiga música dos Carpenters “Bless the beast and children” (Abençoe as crianças e os animais). Cuja tradução da letra da música acho essencial para continuar tratando do assunto:

Abençoe As Feras e As Crianças

Abençoe as feras e as crianças
Pois nesse mundo eles não tem voz
Eles não tem escolha

Abençoe as feras e as crianças
Pois o mundo não poderá nunca ser
O mundo que eles veem

Ilumine seus caminhos
quando a escuridão os cercar
Dê-lhes amor
Faça-o brilhar ao redor deles

Abençoe as feras e as crianças
Dê-lhes proteção para as tempestades
Mantenha-os salvos
Mantenha-os aquecidos

Fonte: https://www.letras.mus.br/carpenter-karen/bless-the-beast-and-children/

Na primeira estrofe, quando dizemos que as crianças não têm escolha, mesmo o adolescente não tem tanta informação ou experiência, o que vai adquirindo com o passar da vida. E, recentemente, são bombardeados com milhares de informações sem preparo para identificar em que podem ou não acreditar. O que devem ou não levar a sério. Então, a internet deixa suas cabeças cheias de informações errôneas ou inúteis, que não auxiliam na sua formação como bons cidadãos ou como pessoas com empatia ou sensibilidade para viver com um mundo complexo na diversidade de pessoas. O espaço da escola ficou muito pequeno para eles.

Além disso, seus pais ou familiares precisam trabalhar enlouquecidamente, sem tempo para lhes dar atenção, carinho, ou amparo em situações mínimas, piores com relação a seu aproveitamento escolar. Só que ao invés de valorizarem o ensino e confiarem na equipe educacional, que procura oferecer as melhores orientações para seus filhos, estes familiares não confiam. Em primeiro lugar, estes pais desvalorizam a educação. Certamente, porque em sua maioria, os próprios pais dos alunos não saíram do Fundamental I. Um dia ouvi um comentário de aluno de sexto ano sobre o fato de que todos eles já tinham superado o quanto os pais tinham aprendido. Talvez por isso, por não saberem orientar seus filhos, também não os ajudem a valorizar a escola. Além do fato, de sempre culparem quem está mais próximo, pelos problemas que as famílias enfrentam. Infelizmente, sobram pais que não comparecem a uma reunião pedagógica da escola, Ou que, quando aparecem para conversar com a direção ou a orientadora pedagógica, vão acreditando nas conversas que os próprios filhos passaram aos seus pais antes, para justificar suas atitudes errôneas.

Já a segunda estrofe diz que o mundo não poderá ser o mundo que as crianças veem. Tenho restrições, porque acredito que a construção de um mundo melhor está justamente nas mãos dos jovens adultos. Embora saibamos que milhares de coisas precisam ser feitas com urgência; sentimos que nosso mundo precisa de grandes mudanças e não fazemos nada a respeito. Do mesmo modo, a escola precisa se adaptar às novas necessidades dos alunos, à formação de seres humanos melhores. Prontos para enfrentar as dificuldades em que vivemos. E os pais e familiares precisam acreditar no trabalho executado pela escola e pelos professores, Mais ainda quando os filhos são adolescentes.

Em 2019, tive um aluno de EJA (Educação de Jovens e Adultos), voltada para aqueles que não terminaram o Fundamental II dentro do tempo previsto, ou seja, até os 15 anos. Este rapaz tinha uns 16 anos e estava sempre contando histórias, não fazia as atividades nem respeitava as regras da escola. Então, a mãe foi chamada. Tive pena quando ela apareceu, porque veio reclamando que não sabia mais o que fazer com o filho. Conselho número um,: jamais digam isso para seus filhos adolescentes. Nesta faixa etária, eles costumam testar as regras que foram passadas desde a infância. Se os pais ou familiares não lhes passaram regras quando eram crianças, e não foram coerentes e constantes, jamais terão o respeito dos filhos, o que piora, ainda mais, à medida em que estes crescem.

 

Conselho aos Pais e Mães

Muitas vezes, os pais pensam que já passaram por muitas dificuldades, então só desejam realizar os desejos dos filhos. Aí que mora o perigo. Se quiserem agradar seus filhos, façam isso quando e se eles merecerem. A mesma forma, os donos de cães devem fazer com seus cachorros quando eles forem pequenos filhotes, ensinando-lhes desde cedo as regras de comportamento da casa. As regras dão segurança para as crianças, principalmente, se elas forem constantes e coerentes. E nunca se faz necessário espancar um filho ou filha, um olhar forte de repressão já produz bons frutos. Quanto à conversa sobre o que é certo ou errado, ela deve sempre existir. De início, as crianças começam a obedecer por amor, assim quando chegarem à adolescência e começarem a testar os limites, basta repetir os mesmos procedimentos, quantas vezes forem necessários.

Minha filha sempre foi muito doce comigo. Desde cedo, ela aprendeu o que poderia e o que não poderia fazer. A ocasião em que fui mais firme com ela, foi quando ela disse que não faria vestibulinho, logo em outubro, sendo que eu não teria dinheiro suficiente para lhe pagar o Ensino Médio em outra escola que não fosse a pública. Olhei para ela com fúria, e falei muito, muito firme. Para quem não sabe o que é vestibulinho, são os exames que os alunos de final de Fundamental II realizam para entrar num curso técnico gratuito, de excelente qualidade. Três anos depois, quando ela entrou na Faculdade, acabou encontrando nos diversos cursos da instituição, os mesmos colegas que conheceu no curso técnico. Foi uma surpresa interessante!

Confesso que ela passou alguns anos reclamando do curso técnico. Mas foi graças ao que ela pode aprender nele que conseguiu entrar na Universidade pública. Então, não lamento nenhuma atitude que tive na educação da minha filha. Detalhe: eu a eduquei sozinha, longe do pai dela, embora o padrasto acabasse tratando-a como filha. Por outro lado, minha filha o considera um pai, realmente. Então, entendo as mães que criam seus filhos sozinhas e trabalham muito. Sei o que passam. Mas o importante é sempre ouvir seus filhos e conversarem sobre a escola, os amigos, o que aprendem. Ainda que eles apareçam com dúvidas que você não sabe explicar. A melhor coisa, neste caso, é pedir ajuda ao professor ou à escola. E, principalmente, façam seus filhos entenderem que o professor é uma ponte para o futuro. Conforme ouvi num filme butanês sobre o papel do professor. Vale a pena assistir a este filme: “A Felicidade das Pequenas Coisas.”

Filme A Felicidade das Pequenas Coisas

https://www.adorocinema.com/filmes/filme-279377/

(continua)

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