Conta Comigo – Um grande dia para as escritoras brasileiras

Conta Comigo – Um grande dia para as escritoras brasileiras

Conta Comigo – Um grande dia para as escritoras brasileiras é artigo de Michele Machado Fernandes em sua coluna semanal na Expedição CoMMúsica.

 

Um fim de semana histórico para as escritoras nacionais; inesquecível para mim. (Michele Fernandes)

 

Escritoras de Porto Alegre. Foto de Márcia Prado. Escadaria 25 de Maio, 11/06/2022.

Foi ideia da Feira do Livro de São Paulo, evento literário de abrangência significativa e grande visibilidade, realizado este ano entre os dias 8 e 12 de junho. O que a princípio parecia apenas um ato ao lado de tantos outros, repercutiu em proporção geométrica.

A inspiração foi uma famosa foto histórica conhecida como “A Great Day in Harlem” (Um Grande Dia no Harlem), tirada pelo fotógrafo Art Kane, em 1958. O retrato em preto e branco apresenta 57 músicos de jazz novaiorquinos, posicionados na 17 East 126th Street entre Fifth e Madison Avenue e foi publicado na capa da revista “Esquire”, edição de janeiro.

 

A Great Day in Harlem. Foto de Art Kane. Nova Iorque, 1958.

 

A organização da Feira do Livro propôs, a partir disso, que as escritoras da capital paulista se reunissem no dia 12 de junho na escadaria Pagu (posteriormente realocadas para o Estádio Pacaembu devido à presença de cerca de 400 escritoras) a fim de fazerem o registro simbólico do ingresso definitivo e irreversível das mulheres da literatura.

Pois é, dessa vez as mulheres não ficaram de fora!

Mas o que eu tenho a ver com isso se moro em Porto Alegre e, de fato, não me desloquei para São Paulo nesse dia?

Acontece que as mulheres brasileiras já estavam organizadas. Em grupos de ações feministas ligados à literatura, elas já estão prontas para abraçar qualquer oportunidade e um dos lemas é justamente a união, que fez disseminar essa ideia por diversas cidades de nosso país.

De Norte a Sul do Brasil, houve encontros em lugares de relevância cultural onde houvesse escadarias em tamanho adequado para comportar os grupos de autoras dessa localidade. Assim, além de São Paulo, houve eventos de mesmo formato em Fortaleza, Brasília, Belo Horizonte, Porto Velho, Rio de Janeiro, Vitória, Porto Alegre, entre mais de 30 cidades brasileiras.

Quando fiquei sabendo do evento na capital gaúcha, minha cidade, um misto de orgulho e pertencimento tomou conta, mas não sem ter algumas alfinetadas da impostora que em mim habita dizendo que eu não conheceria ninguém por lá e que seria só, mais uma vez em que eu me sentiria deslocada no meio de um monte de gente.

O dia 11 de junho amanheceu marcando os 4°C, como adiantava a previsão do tempo um dia antes. A cama quentinha bem que tentou me abraçar com seus cobertores floreados. Era quase um crime não dormir até tarde nesse dia. Mas a intenção era mesmo desafiar. No meu caso, desafiar o patriarcado (como acontece cada vez que mulheres se unem) e desafiar a mim mesma, minhas inseguranças e autossabotagens.

Saí da cama, coloquei uma calça extra, meias grossas, segunda pele, manta, o casaco mais grosso e fui… Havia sol e vento, dando pretexto para o calor e o frio. Eu me dirigi ao Centro Histórico onde ocorreria o encontro. Mais precisamente à Escadaria 24 de Maio, local escolhido pela organização local. Os prédios do Centro encobriam os raios solares como um filtro que deixava escoar o frio. Mas, a cada degrau que eu subia, mais uma escritora se desvelava naquela sombra, e o calor não era do sol, mas da nossa sororidade e afinidade.

10 horas foi o horário marcado para iniciar a concentração. A foto seria registrada às 11 horas. O que era um pequeno grupo foi ganhando corpo, forma, atitude e um grande coração. Sim, éramos muitas e pulsávamos no mesmo ritmo. Se o meu perfil é de uma escritora tímida (para não dizer antissocial), ali, no meio daquele grande abraço de gente, eu me vi acolhida e integrada.

No horário devido, já éramos um corpo imenso, cheio de braços e abraços, de pulsos e impulsos, de mentes e sementes.

Estávamos lá para ser. E éramos.

Escritoras de muitos livros, ou de apenas uma obra iniciada e não concluída. Autoras de romances extensos ou de pequenas ousadias guardadas em gavetas. Não importava. Éramos o que sempre fomos e nem sempre dissemos, ou sempre gritamos. Mas, dessa vez, juntas, poderíamos ser vistas, ouvidas, lidas ou simplesmente imortalizadas — numa foto.

Na hora do clique, foi possível ter ideia do nosso tamanho absurdo. Eu mesma não imaginava existir tantas colegas na minha cidade. A propósito, foi  o meu primeiro evento presencial como escritora. Tomamos vários lances da escadaria e foi difícil conseguir enquadrar a todas nós.

Eu me segurei no corrimão à minha direita, jurando que estava razoavelmente na frente e que seria bem notada na foto. Os pés esticados, tentando ser maior do que de fato sou, uma mão apenas para me apoiar, a outra segurando o livro “Conta Comigo!” — não sei se eu guardiã dele ou ele meu forte escudo. Não houve mão para pegar no celular e poder tirar um retrato mais próximo, mas o cérebro com certeza fez esse papel de um jeito bem mais preciso. Agora, como boa escritora, passo para o papel essas lembranças.

No fim do dia, recebi por e-mail as fotos tiradas pela fotógrafa Márcia Prado, mostrando em pixels as imagens até então captadas apenas pelos olhos. Diferentemente do que eu pensava, apareci lá no fundo, bem pequena, uma célula nesse grande corpo — revelado. De maneira alguma uma decepção. Ainda dava para me ver e me identificar. Sobretudo, está no conjunto das mais de 130 mulheres reunidas a força desse grande dia. Já disse, inesquecível.

Na mídia, nosso evento saiu no jornal “O Globo” em artigo que falava das diversas manifestações pelo Brasil. Não sou alguém que acompanhe noticiários ou leia os jornais famosos porque já cansei de manipulação midiática, mas senti falta de destaque nos jornais locais. Em minhas pesquisas só encontrei noticiado o evento de Porto Alegre no site “Brasil de Fato”, além de outras notas que anunciavam o evento ainda quando estava por acontecer. No jornal “O Estado de Minas”, o subtítulo da manchete diz que “A foto de escritoras também foi feita em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Velho, depois de uma convocatória da Feira do Livro”, apagando as dezenas de cidades envolvidas. Ainda há no Brasil um centro do país onde as coisas acontecem e o que ocorre fora de lá nem sempre é contabilizado.

Mas aconteceu!

Eu estive lá e foi inesquecível!

Conta Comigo – Um grande dia para as escritoras brasileiras

3 thoughts on “Conta Comigo – Um grande dia para as escritoras brasileiras

  1. Monique Bonomini says:

    De casa, pela rede social, esta potente ferramenta que garante nossa união, via as amigas por todo canto empunhando seus livros, escrevendo em uníssono essa história de todas nós. Que feliz eu fico por me reconhecer em tantas mulheres admiráveis. É como alguém disse, o futuro será feminista ou não será!

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  2. cristianerosa28 says:

    Que texto incrível! Senti toda emoção só de ler. Eu não pude ir, na minha cidade, mas foi lindo de acompanhar a movimentação.

    Responder

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