Cavando ideias • A emoção ao ler O avesso da pele

Cavando ideias • A emoção ao ler O avesso da pele

Cavando ideias • A emoção ao ler O avesso da pele é resenha de Silvia Ferreira Lima em sua coluna semanal. O livro resenhado é ‘O Avesso da Pelo’, de Jefferson Tenório,  e publicado pela editora Companhia das Letras. O romance de Jefferson Tenório foi vencedor do prêmio Jabuti 2021 e a leitura é recomendada por diversas razões, mas destacamos o lugar de fala, pois Tenório é negro e seu lirismo  está centrado em questões raciais e o preconceito no Brasil.

 

livro O avesso da pele de Jeferson Tenório Editora Cia das Letras SP. Prêmio Jabuti de 2021
livro O avesso da pele de Jeferson Tenório Editora Cia das Letras SP. Prêmio Jabuti de 2021

 

Jeferson Tenório é um brilhante escritor negro, carioca, radicado no Rio Grande do Sul, que em homenagem à morte de seu pai ou à memória de sua família, preenche com a imaginação, espaços desconhecidos da memória para criar a infância assim como a vida dos personagens principais, que na sua narrativa são seu pai e sua mãe. E com uma narrativa ágil e ao mesmo tempo delicada e sensível, vai preenchendo a psicologia de seus personagens, assim como Dostoievski, seu escritor favorito desenvolve em  Crime e Castigo. E nesta declaração de amor à literatura, o doutor em teoria literária pela PUC/RS, também demonstra seu amor pelas histórias, assim como pelas belas narrativas.

Há dois momentos em que seu pai na juventude lê Crime e Castigo e devido à sua leitura, acaba conquistando o respeito de um policial, durante uma de suas abordagens assim como, já aos cinquenta e dois anos, como professor de Ensino Médio, quase se aposentando, ele consegue a atenção de seus alunos demonstrando-lhes como a vida é igual à arte, ou ainda, a arte é igual à vida. E nestes momentos de aula, em que consegue despertar a atenção dos alunos, o professor consegue lhes passar valores marcantes para o restante de suas vidas difíceis.

O autor descreve de forma detalhada e bem delicada como existe racismo no Brasil e como o negros sofrem discriminação, desrespeito e violência devido à sua cor. Atenta ainda, à situação das mulheres negras, que sofrem ainda mais violência, de forma mais desumana. O protagonista de seu romance, o personagem Henrique, possui um professor, o Oliveira, professor de literatura, que lhe passa um grande ensinamento social sobre as relações humanas e o racismo estrutural existente no Brasil.

Como leitores sensíveis, ficamos chocados ao observar como o amor entre Henrique e Juliana, uma jovem branca, vai mudando, da postura de total ignorância do racismo, à postura de erotização do racismo, até a postura de desvalorização e falta de respeito sofrida por Henrique originada pela família de Juliana. A qual, por mais que ame Henrique, nunca percebe como as piadas, os comportamentos, as palavras, acabam construindo um relacionamento negativo dos familiares com relação ao Henrique, por mais que digam que não são racistas. O desconhecimento do próprio racismo existe de modo muito constante, venenoso e ignorante. Não é à toa que todos os estudantes sérios acerca do racismo no Brasil, propõem uma mudança de vocabulário, bem como de hábitos, para mudarem estes comportamentos de racismo estrutural.

Assim, como José Saramago, Jeferson Tenório, raramente escreve parágrafos pequenos, organizam o ritmo de suas narrativas mais pelos capítulos do que pela paragrafação. Além disso, também não  predominam as orações subordinadas, mas os períodos simples, dando mais agilidade à narração dos fatos. Além disso, existem em suas frases, delicadeza, poesia, como em: “Às vezes, você fazia um pensamento e morava nele. Afastava-se. Construía uma casa assim. Longínqua. Dentro de si.” p.13   ou em “Olho para tudo isso e percebo que serão esses objetos que vão me ajudar a narrar o que você era antes de partir.” p.14.

Além disso, logo no início o narrador nos conta que vai narrar a história de um morto. Mas como foi essa pessoa ou como morreu, nós só descobriremos no final do livro. Ou ainda, precisaremos acompanhar toda a história para entender o que aconteceu. E como aconteceu. Henrique, como todo herói tem seu momento de heroísmo e de extrema alegria. O momento em que se sente mais satisfeito do que nunca se sentiu antes. O momento em que reconhece o valor que oferece aos momentos mais simples e ritualísticos de sua vida. Aqueles tipos de momentos que muitos temos dificuldade em reconhecer. Henrique reconhece. E se sente nesta extrema alegria momentos antes de sua morte. Mas sua vida toda já tinha valido a pena. Pelo menos, este é o sentimento, despertado em mim, no lugar do personagem. Senti uma imensa realização. Amei o livro. Adorei. Li em dois dias. Só não li mais rápido porque não pude deixar de viver para entrar na história.

Senti imensa empatia por tudo o que os personagens sofreram devido ao racismo. De todas as formas e modos. E sinceramente, as mulheres negras, sofrem um racismo ainda pior. Ainda bem que já vivemos numa sociedade em que muitos lutam pela conscientização do restante da população mundial. Afinal de contas. o que torna um tipo de ser humano melhor do que outro? Na minha opinião, o que nos diferencia são nossos sentimentos e qualidades que existem muito além de nossos corpos e de nossas peles.

Ganhador do Prêmio Jabuti de 2021, O Avesso da Pele é um livro maravilhoso, cuja leitura eu recomendo.

Outros livros do autor:

O Beijo na Parede (2003) Ganhador do Prêmio de Livro do Ano pela Associação Gaúcha dos Escritores

Estela sem Deus (2018)

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